Virtualização, computação em nuvem, software e hardware sob demanda. Tendências tecnológicas como estas têm afetado drasticamente os data centers ao redor do mundo. Criados para prover serviços por meio de infraestrutura compartilhada ou dedicada, esses centros compõem hoje um mercado em ebulição. Isso porque, em paralelo a todas essas tendências, registra-se no ambiente empresarial um nível sem precedentes de geração e distribuição de informações virtuais, o que multiplica a demanda das corporações por backups, storage e modelos alternativos de aquisição de serviços. Diante desse cenário, os gestores desses centros encaram o fato de que nada mais será como antes. Os novos tempos têm redesenhado o perfil, as estratégias de vendas e até mesmo a abordagem de crescimento dos data centers. 

[private] “Antes, montava-se um data center em terreno com milhares de metros quadrados, com metade do espaço reservado para expansões futuras. Hoje, com a virtualização e a consolidação (tecnologias que permitem a otimização de servidores), por exemplo, esse espaço extra tende a nunca ser usado para expansão, porque o aumento da capacidade do centro será de outra natureza”, diz o vice-presidente do Gartner, Cassio Dreyfuss, citando, para ilustrar, o data center da IBM no Brasil. “O terreno deles foi pensado para ter dois prédios, mas até hoje um dos espaços é estacionamento porque a IBM evoluiu incrivelmente em outra direção, acompanhando a tecnologia”, diz.

Virtualização

Entre as muitas mudanças que sacodem o mundo dos data centers, a virtualização é de fato uma das mais festejadas por especialistas da área, entre eles Colleen Smith, vice-presidente de marketing da Progress Software. Apresentada como uma das mulheres mais influentes do mundo na área de canais de TI, Colleen – que esteve recentemente no Brasil para discutir a comercialização de produtos pelo modelo Software as a Service (SaaS) e cloud computing – é enfática: “Trata-se da inovação número 1 nos data centers. Entre outras coisas, aumenta a eficiência e rapidez do processamento”. Ela aponta custos fixos e despesas gerais em demasia como fatores diretamente associados à ineficiência na utilização de servidores. “As estatísticas mostram que servidores em sua maioria nunca rodam mais do que 40% a 50% da sua capacidade. A virtualização pode aumentar essa taxa para mais de 80%, empurrando custos para baixo”, afirma.

Sobre o assunto, a VMware, multinacional que é referência global em virtualização e infraestrutura de nuvem, enxerga a virtualização como o “catalisador essencial” que irá permitir a transição para o cloud computing. O pote de ouro no fim dessa trilha, a fornecedora garante, será uma infraestrutura bem mais simplificada e com forte apelo de economia para empresas usuárias. “Elas estão esperando que a computação em nuvem traga eficiência, flexibilidade e economia na oferta de TI para os negócios, ou seja, esperam o modelo de TI como serviço”, afirma Rodrigo Rezende, engenheiro de sistemas de virtualização da VMware do Brasil. Ele se refere às muitas organizações de TI no país que assistem a um aumento substancial das demandas do negócio mas ainda rodam aplicativos em infraestruturas caras e de difícil evolução, muitas vezes em contexto de enxugamento de verbas e forte pressão para redução de custos.

Tudo como Serviço

Para se beneficiar das inovações no mundo dos data centers, as empresas devem escolher o caminho mais pragmático que, na avaliação de Rezende, é aquele que combina a preservação de investimentos tecnológicos anteriores com a aposta em modelos de TI como a IaaS (infraestrutura como serviço) e PaaS (plataforma como serviço), além, é claro, do SaaS.

O especialista afirma que o modelo SaaS – que distribui para o usuário final aplicativos hospedados em um servidor, via internet e mediante assinatura de licença do tipo “pay-as-you-go” – ganha, a cada dia, mais popularidade e está se tornando dominante na entrega de tecnologias suportadas pela web e orientadas por arquitetura SOA (Service-Oriented Architecture). “Ao mesmo tempo, o serviço de banda larga está mais acessível para acomodar usuários de qualquer parte do mundo”, diz Rezende, acrescentando que fornecedores de soluções SaaS alavancam enormes economias de escala na implementação, gerenciamento e manutenção de suas ofertas. Ele cita, entre os muitos tipos de softwares já oferecidos como serviço, aplicativos para gerenciamento de contas e de relacionamento com clientes, internet banking, correio eletrônico, recursos humanos, segurança em TI, gerenciamento dos serviços de TI, videoconferência, análise de estatísticas de rede e de acesso à web e gerenciamento de conteúdo web.

Já o modelo de IaaS – que permite que empresas, em lugar de comprar servidores, contratem recursos de infraestrutura conforme suas necessidades e a um custo que varia de acordo com o uso efetivo ou com os recursos reservados – revela-se atraente porque, ao contrário da tradicional terceirização, não requer dívida elevada, negociações complexas e contratos longos para a construção de infraestrutura. “O IaaS cria um serviço de escolha, como um menu à la carte ou sob medida”, diz Rezende. O outro modelo mencionado pelo especialista, o PaaS, propõe a simplificação do desenvolvimento, teste, implementação, hospedagem e gerenciamento de softwares; suportando todo o ciclo de vida do desenvolvimento de aplicações, entre muitos outros benefícios.

Estrutura eficiente e verde

Muita gente ainda enxerga o data center apenas com um conjunto de ativos de TI, como servidores, switches e storages, alerta Mark Alexandre Breno, gerente de desenvolvimento de negócios e marketing da APC by Schneider Electric. Entretanto, quem acompanha o segmento de perto sabe que tais ativos representam apenas a “sala de computadores” e que, nos centros modernos, outros elementos vêm ganhando grande relevância nos últimos anos, seja devido à busca por mais eficiência e economia, seja por questões ligadas a meio ambiente e sustentabilidade.

Breno lembra que são igualmente essenciais e alvo de inovações os sistemas que preservam e alimentam os ativos dentro da sala de computadores, como UPS (Uninterruptible Power Supplies , ou no-breaks), gerador, painéis elétricos e sistema de ar condicionado. A eficiência de todo esse conjunto de equipamentos depende de muitas outras variáveis definidas em etapas prévias, a começar pelo local onde está instalado o centro de dados. “Não é recomendável, por exemplo, construir data center perto de lugar com risco de acidente, como aeroportos. Também é preciso pensar na capacidade da distribuidora de energia elétrica da região, tendo em vista o crescimento futuro, operação e vida útil do data center, entre outros fatores”, ilustra o gerente.

O gestor da APC diz que os principais usuários de data centers ainda são instituições financeiras, empresas de hosting e colocation, call center e governo. Para crescer dentro dessa base ou avançar em outros territórios, o mercado fornecedor se vale de inovações como data centers modulares e em containers, tendência citada por Breno como uma das mais importantes atualmente. “Soluções modulares de energia e resfriamento em containers são fornecidos já montados e testados. Podem ficar empilhados ou em um estacionamento, por exemplo”, diz o executivo da APC, lembrando que todas as soluções de infraestrutura da APC suportam as tendências de virtualização, nuvem e colocação.

Na Emerson Network Power, que mantém um grande data center em Saint Louis, Ohio (EUA), e planeja consolidar 100 centros globais em apenas quatro, o diretor de vendas, Luiz Cristiano Soares, salienta que já estão nas prateleiras (e no menu da multinacional) várias inovações alinhadas com o conceito de data center do futuro. É o caso de UPS com eficiência de até 99%, ar condicionado até 30% mais econômico e sistema integrado capaz de gerenciar toda a infraestrutura elétrica e de TI. “Os novos conceitos em design preveem data centers com distribuição em 380V/220V, o que elimina a necessidade do uso de PDUs (unidades de distribuição de força)”, informa Soares. O diretor avisa que alguns fabricantes já estão lançando servidores que funcionam em 277V. “Esses modelos podem ser empregados em instalações de 480V também sem o uso dos PDUs”, ilustra o diretor.

Victor Arnaud, diretor de marketing e processos da Alog Data Centers, é outro que elege como principais inovações tecnológicas no setor aquelas que visam reduzir a emissão de CO2 na atmosfera e preservar recursos naturais, como energia elétrica e água usadas no funcionamento e refrigeração dos equipamentos. De acordo com o diretor, os princípios de “TI verde” incorporados ao novo data center da Alog (em Tamboré, SP), garantem redução de pelo menos 70% no consumo de água e de 10% no consumo de energia.

Com dois centros de dados no país (o outro é no Rio de Janeiro), a Alog integra a Plataforma Equinix, fornecedora global com 95 centros espalhados pelo mundo. Para os mais de 1.200 clientes corporativos, entre os quais a Petrobras, Eletropaulo, Grupo SNH e IBM, a Alog oferece serviços que vão de data center a cloud computing corporativo, passando por segurança, e-mail e aplicações diversas, algumas no modelo SaaS. No momento, o foco dos seus especialistas é a apresentação, no Ciab-Febraban, de soluções de recuperação de desastres e de contingência para a área financeira. “Também vamos mostrar os benefícios de poder contar com a robustez e expertise do maior e mais moderno data center do mundo, a Equinix”, diz Arnaud.

Engineered Systems

Para Paulo Bosco Otto, consultor de vendas de storage da Oracle do Brasil, as inovações que merecem destaque no âmbito de data center são os sistemas integrados completos. Também conhecidos como “engineered systems”, esses sistemas combinam hardware, storage, networking, virtualização, banco de dados e middleware, e são oferecidos no modelo PaaS.

Otto informa que, sob o guarda-chuva Oracle On Demand Services, a operação brasileira da multinacional administra os aplicativos da marca nos sites dos próprios clientes ou em data centers locais, a critério das empresas. “Atualmente, devido à grande procura, o Oracle On Demand está em processo de certificação de data centers locais para oferecer serviços, incluindo toda a infraestrutura”, informa o consultor. Ele explica que a fabricante usa o conceito de configuração certificada, com hardware, sistema operacional, banco de dados e servidor de aplicações padronizadas. O consultor destaca ainda a oferta de serviços em plataforma alternativa de desenvolvimento e distribuição (PaaS), permitindo aos clientes da Oracle elaborar e disponibilizar soluções SaaS para usuários finais.

Por fim, Marco Américo, diretor de operações do UOL Diveo, considera que o desafio de se construir um data center inclui garantir segurança física e ambiente ideal não apenas para equipamentos e sistemas, mas também para pessoas. O diretor alerta para a necessidade de se formar equipe de profissionais qualificados e capazes de manter os serviços sem interrupção, todos os dias da semana. “Essa equipe deve contar com profissionais especialistas e certificados nas diversas tecnologias e disciplinas de TI e seguir as melhores práticas de operação e sistematização do trabalho, tais como o ITIL (biblioteca de melhores práticas em TI)”, diz o diretor.

Com base em sua própria experiência e nos mais de 15 anos de atuação da UOL Diveo no mercado de internet e TI, Américo também percebe as iniciativas para tornar o uso de energia mais eficiente como forte tendência no mercado de data centers, ao lado do cloud computing. “Para nós, um dos principais fatores é a adoção dos servidores blades (lâmina, em inglês), que compõem racks com alta densidade computacional, maior densidade energética por rack e otimização para virtualização”, explica Américo. Ele destaca ainda as suítes de gerenciamento fim a fim como importante elemento de modernização dos centros de dados. “Permitem análises mais acuradas, administração dos acordos de nível de serviço e gerenciamento da relação entre a aplicação e o uso da infraestrutura, além de possibilitar o desenho de cenários preditivos de consumo de recursos”, elenca o executivo. Com uma rede de seis data centers (os principais localizados no estado de São Paulo) e uma base composta por grandes corporações, como a BM&FBovespa, Banco Schahin, Magazine Luiza, Check Express, Buscapé, Walmart e SBT, a UOL Diveo mantém no seu portfólio serviços em nuvem prestados nos modelos SaaS, IaaS e PaaS.

Data Center

… é a instalação que concentra todos os equipamentos de TI, de comunicação, de segurança, de energia elétrica e de ar condicionado necessários para a operação ininterrupta de sistemas e aplicativos das empresas. Para tanto, são utilizados diversos tipos de tecnologias de armazenamento de dados baseadas, em sua maior parte, em hardwares de alta capacidade que conseguem gerenciar grandes volumes de dados, com níveis de segurança, disponibilidade e velocidade de acesso às informações. Um centro de dados é composto por infraestruturas civil (edifício), elétrica e mecânica (subestação, gerador, transferência, UPS, chillers e ar condicionado de precisão) e de TI (servidores, storage, telecom, switches etc.), além de grande camada de gerenciamento. (Informações da UOL Diveo e da Emerson Network Power)

Quatro forças de mercado que afetarão os data centers nos próximos cinco anos:


- Designs mais Inteligentes

Em contraposição aos métodos tradicionais de concepção de centros de dados que, por serem da era do mainframe, não levam em conta, por exemplo, que data centers hoje têm demandas muito diferentes em termos de sistemas elétricos e mecânicos, dependendo da carga de trabalho, idade do equipamento etc.

- TI verde

Gestores de data center, em sua maioria, dão pouca atenção para essa questão, a menos que sejam pressionados pela diretoria ou pelo público. Mas com o aumento da conscientização, cresceu também o foco na eficiência energética, tanto na concepção quanto na execução do projeto. Novos data centers já são desenvolvidos com metas específicas de PUE (Power Utilization Efficiency), seja para aumentar a eficiência, seja para incrementar a imagem junto aos público.

- Mais densidade

Com projetos inteligentes e pressões da TI verde, os gestores de data center e designers começaram a se concentrar na densidade computacional em seus ambientes. A maioria dos data centers é subutilizada do ponto de vista espacial. Novos projetos já buscam densidade de rack ideal, muitas vezes aproximando-se de 85% a 90%, em média. O advento de ambientes de nuvem privada e alocação de recursos irá fornecer métodos para melhorar a escalabilidade e a produtividade nos data centers.

- Cloud computing

Gestores de centros de dados já começam a considerar a possibilidade de transferir cargas de trabalho não essenciais para um provedor de nuvem. Isso libera espaço, energia e refrigeração para que sejam direcionados a trabalhos mais críticos. Também aumenta a vida útil dos data centers. [/private]