Algumas pessoas estão acostumadas a ver o lado ruim de tudo. Se está sol, é ruim porque o dia fica muito quente. Se chove, também é ruim, pois a chuva molha toda a rua. Quando se fala sobre desemprego, porém, essas pessoas estão cobertas de razão. Elas não são pessimistas: são apenas observadoras. Mesmo com todo nosso avanço tecnológico, a preocupação crescente com o bem estar das pessoas e uma nova geração de trabalhadores que é mais capacitada do que nunca, o desemprego vai sim continuar a crescer.
Segundo dados do IBGE, a taxa de desemprego no primeiro trimestre de 2018 corresponde a 13,1%. O número de desempregados no período foi de 13,7 milhões de pessoas. Mas como todo brasileiro sabe, essa é uma história antiga. Desde o começo da crise no mercado de trabalho, em 2014, nosso país perdeu quase 4 milhões de vagas com carteira assinada - praticamente um milhão de empregos por ano.
Essa é uma realidade que já estamos acostumados, mas para a qual não estamos realmente preparados. O que você faria se perdesse agora o seu emprego? A maioria dos brasileiros não faz poupança, não aplica seu dinheiro e raramente tem um plano B. Vivemos da eterna esperança de que tudo será melhor amanhã, mesmo com uma pilha de dados e estatísticas comprovando o contrário.
Não quero ser pessimista e nem reclamar todos os dias de que o tempo está ruim, mas com a automação batendo na nossa porta, espera-se que entre 400 e 800 milhões de pessoas vão perder seus empregos mundialmente até 2030. O dado é uma previsão da consultoria McKinsey, que ainda afirma que 15,7 milhões de trabalhadores serão afetados apenas no nosso país.
A automação traz velocidade para as empresas e riqueza para o estado. Ela não é uma possibilidade, mas algo que fatalmente irá chegar de alguma forma ao seu campo de trabalho. Pessoas que trabalham com relacionamento e questões decisórias estão em uma posição mais tranquila, mas quem trabalha em linhas de produção, realiza funções repetitivas ou resolve questões lógicas - facilmente aprendida por uma inteligência artificial - deve-se preocupar desde já. Mesmo que o seu emprego não esteja na linha de frente, ainda assim você deve ficar atento, pois diversos processos irão mudar com a inserção da automação na nossa rotina.
Muitos ainda relacionam o termo “automação” com grandes fábricas e robôs. Mas pense em uma agência bancária, por exemplo. Quantas questões não conseguimos resolver apenas com um toque no aplicativo? Pedimos cartões, fazemos transferências, conferimos nosso saldo… E quando nos dirigimos a uma agência, muitas vezes é apenas para tirar dinheiro no caixa eletrônico. Vemos aqui um caso claro de como a tecnologia eliminou empregos e reinventou processos. Mas no meio deste caminho, surgiram também novas necessidades. Foi preciso desenvolver o hardware do caixa eletrônico, criar o seu sistema, desenhar as suas telas, criar um sistema de segurança para reconhecer os correntistas, etc. A tecnologia cria sim novos empregos, mas infelizmente, em um número consideravelmente menor.
Para escapar dessa preocupante estatística, os trabalhadores precisam de especialização. Muitos terão que sair do seu mercado de trabalho atual para aprender novas funções. Outros, mesmo assim não conseguirão uma recolocação. Nessa hora, o espírito empreendedor e a criatividade ajudarão a criar saídas, mas a verdadeira solução para essa crise social precisa vir de nossos governos. A automação é uma excelente ferramenta para o crescimento econômico, mas uma ameaça para nossa sociedade como a conhecemos hoje.
Proteger o modo de trabalho atual - com muitos humanos empregados - infelizmente não é uma opção viável. Nossa tecnologia está se desenvolvendo rapidamente e, por isso, precisamos criar um novo modelo de sociedade. O problema é descobrir qual será o melhor formato. Por isso, acostume-se com a ideia de que o desemprego irá continuar a crescer. Especialize-se, encontre suas próprias alternativas, mas cobre de nossos governantes para que eles desenvolvam uma solução para aqueles trabalhadores que não conseguem sozinhos encontrar uma resposta para o problema da máquina tomando seu lugar no mercado de trabalho. As vidas de muitas famílias irão depender dessa solução.
Fabrício Vendichetis Martins

CEO da Indigosoft