Por Antonio Carlos Soares, Cofundador e Diretor de Operações do Runrun.it
O Brasil voltou ao centro das atenções globais. Na cultura e no entretenimento, o cinema nacional retomou espaço nos grandes circuitos globais com produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, que circularam e ainda circulam por festivais relevantes, ampliando a presença do país em premiações internacionais, incluindo Globo de Ouro e Oscar. No esporte, atletas como Rebeca Andrade, maior medalhista olímpica da história do país, e Rayssa Leal, que se consolidou como um dos principais nomes do skate mundial, recolocaram o Brasil em posição de protagonismo em competições internacionais. O Brasil voltou a ser observado não como exceção, mas como uma força criativa consistente.
Sim, estamos na moda e esse movimento de visibilidade não se restringe à cultura. Ele também tem se consolidado em uma área decisiva para o crescimento econômico de longo prazo: a tecnologia. Assim como ocorreu no esporte e no entretenimento, o ecossistema tecnológico brasileiro amadureceu, ganhou escala e passou a reunir competências que o colocam em condições reais de competir globalmente.
Relatórios do Banco Mundial e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já posicionam o Brasil como um dos mercados digitais mais relevantes entre os países emergentes, destacando o tamanho do mercado interno, a formação de talentos e o avanço regulatório em setores como serviços financeiros e pagamentos digitais. O Fórum Econômico Mundial, em estudos sobre transformação digital, aponta o nosso país como um dos ambientes mais avançados da América Latina em adoção tecnológica e infraestrutura. Consultorias como McKinsey e BCG reforçam esse diagnóstico ao classificar o Brasil como um dos principais vetores de crescimento tecnológico fora do eixo Estados Unidos, Europa e China.
Os resultados desse amadurecimento aparecem de forma concreta. Empresas de tecnologia criadas no Brasil conquistaram posições de destaque no mercado global. O Nubank tornou-se uma das maiores plataformas financeiras digitais do mundo em número de clientes. O iFood construiu uma operação de logística, dados e pagamentos que virou referência internacional. A VTEX levou tecnologia desenvolvida no Brasil para grandes varejistas globais ao abrir capital em Nova York. A Gympass, hoje Wellhub, expandiu sua plataforma de bem-estar corporativo para dezenas de países, atendendo empresas multinacionais e consolidando um modelo global a partir do Brasil. Esses casos mostram que software brasileiro escala, internacionaliza e gera valor fora de seu mercado de origem.
Esse avanço ocorre em um contexto macroeconômico particularmente favorável. A bolsa brasileira voltou a bater recordes, com o Ibovespa em níveis que não eram vistos há anos. O retorno do fluxo de capital estrangeiro reflete uma leitura clara dos investidores sobre o momento do nosso país, o que torna o Brasil um candidato bem posicionado para receber uma parte mais justa, e cada vez maior, dos fluxos de capital internacionais que começam a buscar diversificação para além do dólar.
Não por acaso, líderes globais de investimento têm sido diretos sobre o momento. Em entrevista à imprensa, Rodrigo Catunda, managing director e co-head da General Atlantic no Brasil, afirmou que este é um dos melhores momentos de entrada no país para quem olha o longo prazo. Segundo ele, a gestora tem mais de US$ 500 milhões destinados a novos investimentos no Brasil em 2026. Capital de longo prazo busca mercados que já superaram a fase de promessa e começam a entregar escala, eficiência e rentabilidade.
Quando comparado a outros polos tecnológicos emergentes, como Índia, Israel e países do Sudeste Asiático, o Brasil apresenta uma evolução clara. A Índia construiu sua relevância a partir da escala de talentos e serviços globais. Israel se destacou em deep tech e segurança. Mercados asiáticos avançaram rapidamente em plataformas digitais e modelos de super apps. O Brasil começa a se diferenciar pela combinação de escala doméstica, sofisticação regulatória, inovação em fintech e capacidade de construir não só empresas orientadas ao consumidor final, como também negócios B2B transformadores. Trata-se de um estágio mais avançado do que o de muitos ecossistemas que ainda dependem fortemente de mercados externos.
Esse contexto cria uma vantagem competitiva real para empresas de tecnologia criadas no Brasil. Proximidade com o mercado local, domínio regulatório, capacidade de adaptação rápida e custos operacionais mais eficientes permitem desenvolver soluções mais aderentes à realidade dos clientes do que concorrentes estrangeiros que operam à distância.
Há, porém, um ponto decisivo. A meu ver, esse protagonismo não pode depender apenas do cenário externo. Assim como buscamos fazer em nossa operação aqui no Runrun.it, empresas brasileiras de tecnologia precisam avançar de forma consistente em governança, segurança da informação e escalabilidade. Isso passa por adotar padrões internacionais de compliance e proteção de dados, estruturar conselhos e lideranças mais robustos, desenvolver produtos pensados desde o início para múltiplos mercados e comunicar de forma clara métricas de desempenho, eficiência e impacto real. É assim que excelência operacional se transforma em valor percebido.
A pergunta não é mais se o Brasil pode se consolidar como um polo tecnológico relevante. Essa etapa já foi superada. A questão agora é quais empresas estarão preparadas para ocupar esse espaço e liderar a próxima fase.
O Brasil já mostrou que sabe ganhar medalhas e prêmios. Agora também mostra que sabe ganhar mercado. Na tecnologia, o momento é menos sobre tapete vermelho e mais sobre performance. O próximo passo é transformar esse contexto favorável em protagonismo global, não como exceção, mas como regra.
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