Muito se fala sobre computação em nuvem, ou cloud computing e, mesmo assim o conceito ainda confunde muita gente. Não é por acaso. As definições para o termo variam de acordo com as ofertas dos fornecedores. A descrição usada pela IBM, por exemplo, não é a mesma adotada pela Amazon, da mesma forma que Google, Microsoft e Salesforce mantêm cada uma sua visão particular sobre o tema, só para citar alguns players. É compreensível, portanto, que uma das rotinas de fornecedores, empresas de pesquisa e consultorias de tecnologia ainda tem sido explicar ao mercado as diversas abordagens dessa nova forma de distribuição de serviços de computação em que dados de empresas e de pessoas físicas ficam armazenados em uma grande nuvem de datacenters espalhados pelo mundo e são acessados pela internet. A partir dessa compreensão, é que se pode vislumbrar o impacto potencial do cloud computing na rotina, nos processos e nos resultados das empresas. 

[private] Para a IDC, é importante que as empresas, antes de tudo, diferenciem cloud computing de cloud services. A consultoria considera que serviços de nuvem abrangem todos os produtos ou soluções distribuídas a pessoas físicas ou jurídicas por meio da internet (nuvem), em tempo real. Tais serviços caracterizam-se por uma série de atributos que, combinados, os fazem mais baratos e de acesso bem mais fácil e simplificado, em comparação com modelos tradicionais de distribuição de serviços. Daí o motivo de esta onda ter entre os seus principais alvos (e drivers) o mercado de pequenas e médias empresas, sobretudo, em economias emergentes como a do Brasil. Computação em nuvem, por sua vez, abrange toda a gama de tecnologias que permitem a oferta de serviços em nuvem, desde servidores e redes até software de aplicação e gerenciamento e malhas IP, diz a IDC. O termo também abrange outros instrumentos que possibilitam a efetivação do modelo, como acordos de preço, por exemplo.

Os fornecedores podem usar o modelo de nuvem de computadores conectados à internet para comercializar seus próprios produtos (seja software como serviço, armazenamento ou servidores em nuvem), ou podem oferecer aos clientes suporte e ferramentas para que eles mesmos desenvolvam e distribuam suas soluções na nuvem.

Para o Gartner, cloud computing é um estilo de computação onde capacidades de TI massivas e escaláveis são oferecidas como serviço para múltiplos clientes, por meio de tecnologias da internet. O modelo permite que o usuário use ciclos de CPU e armazene dados de forma remota, sem gastar dinheiro com redes e hardware próprios (veja serviços da Amazon), ou usufrua de aplicações sem precisar comprar software (veja CRM da Salesforce).

E essas são apenas algumas das opções iniciais da computação em nuvem, que tem potencial de distribuir capacidades e soluções as mais complexas, tanto para indivíduos quanto para empresas, segundo o Gartner. A AMR Research, da sua parte, classifica as abordagens de computação em nuvem existentes no mercado em quatro estratégias, batizadas de nuvem aberta (open cloud strategy), jardim murado (walled garden strategy), nuvem interna ou privada (internal cloud strategy) e estratégia de terra e céu (land-and-sky strategy). Entender cada uma dessas abordagens é um bom começo para perceber a abrangência do conceito – ao menos sob o ponto de vista de quem é referência na área – e tirar proveito dele (veja box com descrição dessas abordagens).

Quem é referência

Para a IBM – que instalou treze centros de competência em cloud computing ao redor do mundo e uniu forças com o Google para formar desenvolvedores – computação em nuvem é tecnologia da informação oferecida como serviço, o que abrange tanto hardware quanto software. Tal oferta ocorre em ambiente profundamente escalável e de alto desempenho. A definição traz implícitos conceitos já conhecidos, como computação on demand, que se traduz em pagar apenas pelo que se usa e usar apenas o que se precisa, e grid computing, modelo que interliga redes e gera uma espécie de máquina virtual gigante, com capacidade de processamento multiplicada devido à distribuição de tarefas e ao uso de capacidade ociosa dos computadores. Uma premissa essencial para a adoção em massa, segundo a IBM, é a evolução dos padrões abertos de computação. A maior parte do código do Blue Cloud da IBM é open source.

No Google, empresa de buscas que virou sinônimo de computação em nuvem, mais de 90% das aplicações rodam nessa arquitetura. A empresa mantém uma estrutura mundial e escalável de servidores, que suporta o acesso simultâneo de milhões de pessoas – com um tempo máximo de resposta de busca da ordem de meio segundo. O esforço permanente para que seu sistema nunca saia do ar – porque significa um ralo na sua principal fonte de receita, a publicidade – fez o Google acumular competências que lhe permitem oferecer amplo portfólio de serviços em nuvem, em que o Gmail é uma das primeiras estrelas. No segmento corporativo, um destaque é o e-mail pago incorporado ao Google Apps.

O pool gigante de discos que aloca capacidade na medida em que os usuários precisam permite que o Google disponibilize 25 gigabytes para cada caixa postal. Na empresa de buscas, cloud computing não é visto como uma nova versão de SaaS e sim, como um modelo ligado à melhoria de conectividade, barateamento de storage e padrões abertos, e ligado a tecnologias popularizadas pela internet e em grande escala, o que não necessariamente ocorre no SaaS.

Impacto no segmento de TI

O adoção do modelo de cloud computing deverá provocar grande impacto no cenário de TI, seja entre empresas usuárias, seja entre fornecedores. Segundo Marcello Bosio, gerente de pré-vendas da Hitachi Data Systems no Brasil, o armazenamento em nuvem e o aumento da virtualização dos datacenters estão na lista de prioridades dos executivos para 2010. “Com essas tecnologias, é possível aumentar a capacidade de infraestrutura, o desempenho das redes e dimensionar os equipamentos de acordo com a performance e capacidade requisitadas pela empresa”, diz o gerente da Hitachi, especializada em soluções de armazenamento orientadas a serviços. “As companhias aprenderam que podem simplificar seus sistemas e diminuir seus custos”, diz Bosio.

Tímida ou ativamente, a maior parte das empresas de TI já analisa os reflexos dessa onda no seu modelo de negócios e pensa sobre o que pode fazer para se adaptar aos novos tempos. Segundo especialistas, aplicações mais padronizáveis, como CRM e mesmo ERP, tendem a ir rapidamente para a nuvem. A SAP, por exemplo, já oferece produto com opção de ser rodado na nuvem ou na forma tradicional. Outros fatores que podem influenciar a adoção de cloud computing é o nível de criticidade dos dados envolvidos. Informações de conta corrente de um banco, por exemplo, dificilmente migrarão. Empresas como Oracle e Microsoft, cujo modelo de negócio predomina no mercado, serão forçadas a migrar para o novo modelo, segundo os especialistas.

De olho na tendência, a Microsoft tem investido na interoperabilidade dos seus produtos baseados na Web e no PC. Em seu portfólio para nuvem, um destaque é o Windows Azure, um sistema operacional para desenvolvimento de aplicações na internet que roda nos datacenters da fornecedora e provê elasticidade às aplicações, nos mesmos moldes das ofertas da Amazon. Inúmeros outros produtos carregam o conceito de nuvem, como os serviços da plataforma Windows Live (Hotmail, Grupos, Sky Drive, Fotos, etc.). O usuário da Microsoft pode armazenar programas nos datacenters da fornecedora, contratar CRM, Exchange ou Sharepoint pela Web e terceirizar plataformas para desenvolvimento. Para a fabricante, que prefere usar o termo “software mais serviços”, terá vantagens o fornecedor que deixe o usuário livre para usar computação tradicional ou baseada em nuvens, ou ambas.

A HP, que mantém parcerias com Yahoo e Intel na criação de centros de pesquisa de cloud computing, acaba de anunciar lançamento global na área. A fornecedora de infraestrutura para criação de nuvem interna disponibilizou três soluções que automatizam a provisão de serviço dentro da infraestrutura existente, seja física, virtual ou baseada em nuvem, que garantem aos consumidores de computação em nuvem otimização de custos e previsibilidade para estimar orçamento e que permitem aos provedores oferecer ao SMB serviços de forma terceirizada e com preços equivalentes a utilitários. “Esses lançamentos mostram que a HP está apostando alto no cloud computing, principalmente no aspecto da gestão adequada do serviço tanto para quem disponibiliza quanto para quem usa”, explica Silvio Maemura, diretor da unidade de negócios HP Software & Solutions.

O executivo considera que, do lado da oferta, ainda há poucas aplicações disponíveis, com alguns segmentos partindo à frente, como o de soluções mais padronizadas. “É o caso de aplicações para força de vendas”, exemplifica. A expansão limitada, segundo ele, deve-se ao fato de que os fornecedores ainda não convenceram totalmente o mercado quanto à segurança, desempenho e disponibilidade. “O CIO é pressionado para buscar soluções flexíveis e que reduzam custos, mas se um documento ou informação importante vaza na nuvem, é ele que será responsabilizado”, diz o diretor. Além disso, há a questão da padronização. “A HP pode até criar na nuvem um serviço padronizado para guarda de documentos, mas o grande cliente vai dispensar, porque precisa de soluções específicas para o seu negócio”, pondera Maemura.

Por outro lado, ele observa o forte apelo do cloud computing e a possibilidade de que fatores como a geração de um mercado consumidor expressivo e a pressão pela redução de custos podem levar à padronização de aplicações. Enquanto isso, na Siemens Enterprise Communications os executivos comemoram o fechamento de diversos contratos para venda de solução de comunicação unificada no modelo Caas (comunicação como serviço) baseado em nuvem. O primeiro cliente foi a empresa aérea Azul, que adotou solução hosted para executar todas as funcionalidades de uma plataforma de comunicação tradicional, agregando recursos de telefonia IP e mobilidade. “Em vez de manter diversos servidores, a empresa passou a acessar na nuvem aplicações de voz e colaboração, garantindo total controle dos gastos com telefonia e comunicação unificada para todos os funcionários. E não precisou investir nada em hardware ou qualquer ativo fixo”, analisa João Fábio de Valentim, diretor de serviços e soluções da Siemens. Para 2010, a expectativa da fornecedora é dobrar a base atual de 2 mil usuários de comunicação focada em nuvem no Brasil.

Datacenters no front

No segmento de datacenters, alguns movimentos mostram que o conceito de cloud computing pode ser vendido com facilidade, dependendo da abordagem e do produto oferecido. Na LocaWeb, um serviço de cloud server lançado em 2008 já atraiu grande número de empresas, interessadas em um custo de até 60% menor em comparação com uma solução dedicada com o mesmo poder de processamento. O cliente adquire o servidor em nuvem da LocaWeb, mas mantém o poder de administrar a sua máquina e instalar os softwares que quiser.

A Diveo é outra que já conseguiu convencer muitos clientes a usar sua nuvem para comprar aplicativo como serviço, rodando em infraestrutura compartilhada e pagando por número de usuários e espaço em disco usado. A empresa, que iniciou sua oferta de cloud com o Microsoft Exchange (servidor de e-mail), somava no começo de 2009 mais de cem clientes, entre pequenas, médias e grandes empresas. Elas contrataram armazenamento e processamento, com SLA ligado à aplicação, e não à infraestrutura. Segundo a Diveo, a economia de custos proporcionada pelo compartilhamento ficou entre 30% a 40%, em comparação com uma solução dedicada.

Além do Diveo Exchange, o portfólio de cloud computing da empresa de datacenter incluiu recentemente o Diveo CRM, também em parceria com a Microsoft. “Criamos uma nuvem com capacidade, storage, gerenciamento e backup especificamente para CRM. O próximo passo é a criação, em breve, de ambiente de nuvem para qualquer aplicação, o que multiplica os desafios”, diz o diretor de produtos Marcos Rodrigo. Ele ressalta a aposta da Diveo na expansão das aplicações em cloud computing no Brasil. Na DHC Outsourcing, que oferece soluções de virtualização como serviço, muitas empresas de médio e grande porte já se beneficiam da computação em nuvem.

O serviço é oferecido dentro de uma rede controlada, com arquitetura híbrida que possibilita interligar ambientes virtuais compartilhados a sistemas dedicados. Eles podem adquirir módulos de armazenamento, rede para acesso à Web, segurança, balanceamento de carga, otimização de tráfego, servidor virtual e backup. Podem também terceirizar toda a gestão do sistema virtualizado.

Em 2008, a DHC lançou a V/Care, uma linha de virtualização de ambientes desenvolvida sob o conceito de private cloud computing, ou seja, benefícios de computação em nuvem dentro de uma rede privada e controlada. “Só clientes DHC usam essa rede, com a vantagem de que se consegue misturar recursos físicos com recursos de nuvem, o que em geral não é possível na nuvem pública”, declara Alexandre Cadaval, diretor de engenharia e produtos da companhia. Comercializada em módulos – armazenamento de dados, comunicação em rede, segurança de rede e sistemas operacionais, balanceamento de carga e otimização de tráfego, servidores virtuais e backup –, a linha V/Care já atraiu dezenas de clientes, que economizaram em torno de 30% em comparação com o uso de um servidor dedicado.

Cadaval acredita que a velocidade de expansão do uso da computação em nuvem depende da convergência da nuvem para um padrão definido. Por enquanto, o correio eletrônico continua sendo a principal aplicação mais simples de ser levada à nuvem. “E-mail na nuvem já se tornou um grande repositório de informações, com documentos anexados, grande disponibilidade e escalabilidade infinita. As demais aplicações precisam de um trabalho prévio de flexibilização e adaptação, o que nem sempre é um processo rápido. Mas a tendência é que um número cada vez maior de aplicações, arquiteturas e licenciamentos se adequem ao modelo de nuvem”, diz o diretor. Para ele, há boas perspectivas do cloud computing para gestão de documentos, uma vez que as empresas podem contratar recursos adicionais à medida que cresce o negócio e o número de usuários.

O Grupo TBA, que oferece serviços de datacenter, outsourcing e fábrica de teste, é outro que ingressou na seara da computação em nuvem, com foco no mercado de SMB e começando pela oferta da nota fiscal eletrônica (Nf-e) - que já disponibilizava antes, como utility computing. Desde 2006, a empresa já investiu 15 milhões de reais no novo modelo. Atualmente, 30% da receita da NF-e do Brasil origina-se da solução Cloud NF-e. Os 70% restantes vêm das vendas de hardware Host Secure Module (HSM) e licenças de softwares “Mas nosso objetivo é inverter esses números nos próximos dois anos”, observa Marco Antonio Zanini, diretor-geral da NF-e do Brasil.

A solução oferecida pela companhia consiste no compartilhamento das ferramentas integradas em nuvem (software, assinatura digital, links de comunicação e impressoras). Os dados do cliente da NF-e do Brasil são armazenados em datacenter por cinco anos, seguindo orientação legal. Independentemente do quanto a computação em nuvem se mostre atrativa em vários aspectos, há um consenso em meio à maioria dos especialistas de que ainda não despontou no horizonte a possibilidade de migração para a rede de quaisquer aplicações core das companhias.

“Operações que envolvem grande volume de dados ou transações, como cartão de crédito, estão longe de migrar para a nuvem. E será preciso um cenário muito agressivo em termos de custo para que bancos cogitem sequer conversar sobre o assunto”, exemplifica Delmar Assis, diretor-técnico da Informatica Corporation, empresa que oferece serviços de sincronização de dados on demand, em parceria com Salesforce, e solução para integração de dados em nuvem, com suporte da Amazon Web Services.

Para Assis, o grande benefício da computação em nuvem é a mobilidade que provê ao usuário e ao negócio, além da economia de custos. “Mas em qualquer processo de integração para cloud, investir na qualidade dos dados é mandatório”, alerta o executivo. Ele informa que nos Estados Unidos muitas empresas já usam o modelo de nuvem para aplicativos de ECM. “Em cinco anos, veremos no Brasil a adoção da gestão de documentos e informações em nuvem”, profetiza.

Mas os entraves para aceleração do uso da computação em nuvem por empresas ainda são muitos e não se restringem a privacidade dos dados e segurança. Há dúvidas sobre o modelo de comercialização e se a arquitetura das aplicações poderá ser replicada na nuvem. Os usuários querem saber se haverá interoperabilidade entre as suas aplicações, dentro e fora da nuvem, e se terão o mesmo nível de serviço no novo modelo. Como o fornecedor dimensiona a nuvem, para prestar atendimento diferenciado? Onde termina a responsabilidade do provedor e começa a do cliente? Quando serão definidos e validados padrões de cloud computing? Como ficam as questões de compliance? As respostas para esses questionamentos, quando e se vierem, certamente ajudarão a quebrar barreiras de desconfiança.

Abordagens para computação em nuvem

Nuvem aberta (open cloud strategy) abrange a estratégia adotada pela Amazon, com suas ofertas comoditizadas de capacidade computacional e infraestrutura. As estrelas do seu portfólio são os itens S3 (simple storage service), EC2 (elastic computing cloud) e SQS (simple queue service), além de banco de dados disponibilizado como commodity. Na Amazon, o cliente compra megabytes para rodar aplicações que lhe interessam.

Jardim murado (walled garden strategy) é o apelido dado à estratégia de empresas como Microsoft e Salesforce, que oferecem aplicações que rodam exclusivamente em suas infraestruturas. O Google também estaria com um pé nesta categoria, sobretudo com o App Engine, que permite o desenvolvimento, teste e compilação de programas que devem rodar nos servidores da própria provedora (a Google discorda dessa classificação, argumentando que o desenvolvedor mantém a liberdade de rodar o programa em outra estrutura que não a nuvem do Google).

Nuvem interna ou privada (internal cloud strategy) tem como exemplo tecnologia Blue Cloud (nuvem azul) da IBM. A estratégia consiste basicamente em transformar datacenters corporativos em nuvem interna, que opera de forma similar à internet e pode se interligar a outras nuvens, fora da empresa. Em lugar de máquinas locais ou fazendas de servidores remotas, a IBM promete transformar a infraestrutura em fábrica distribuída de recursos de computação, acessível globalmente.

Terra e céu (land-and-sky strategy), como o nome sugere, consiste de uma combinação entre os dois modelos. Um exemplo ilustrativo citado pela AMR é a própria Microsoft, com o Live Mesh, um serviço de armazenamento e compartilhamento de arquivos que combina nuvem com software instalado na infraestrutura do usuário (on-premise). [/private]