A corrida corporativa pela adoção de inteligência artificial ganhou velocidade nos últimos meses, impulsionada pela pressão por produtividade, automação e competitividade. Na avaliação de executivos de tecnologia, dados e consultoria, o mercado entrou em uma nova fase: o desafio deixou de ser testar ferramentas e passou a ser estruturar empresas para absorver a tecnologia de forma sustentável.
O assunto foi um dos principais pontos discutidos durante o painel Arquitetura, IA e Governança: o tripé da liderança tecnológica realizado no Vertigo Tech Leaders, realizado em São Paulo no dia 15 deste mês. O debate foi mediado por João Trevelin, gerente de contas estratégicas da Vertigo, e contou com a participação de Carolina de Oliveira, sócia-diretora da área KPMG Private Enterprise no Brasil; Oliver de Paula, superintendente de dados e data science do Banco BS2; e André Fernandes, fundador da Vertigo e diretor de produto da companhia. Os executivos discutiram como empresas de setores regulados estão equilibrando inovação, segurança e governança diante do avanço acelerado da IA.
Os especialistas apontaram que o movimento atual tem exposto uma diferença importante entre empresas que apenas experimentam inteligência artificial e aquelas que conseguem transformar a tecnologia em ganho operacional e vantagem competitiva.
Governança deixa de ser barreira e passa a ser diferencial competitivo
Um dos principais consensos do debate foi que a governança ainda é tratada de forma equivocada por parte do mercado. Para muitas empresas, o tema segue associado à burocracia e lentidão operacional. Na prática, segundo os especialistas, a governança tem se tornado um dos principais pilares para escalar inovação sem ampliar riscos.
Carolina de Oliveira destacou que empresas de setores regulados precisam enxergar governança como ferramenta de previsibilidade e crescimento sustentável. “Governança traz transparência na tomada de decisão, ajuda na execução da estratégia e cria confiança junto a clientes, investidores e stakeholders. Em mercados regulados, confiança é um ativo competitivo”, afirmou.
A executiva também chamou atenção para um problema estrutural do mercado brasileiro: a dificuldade de empresas manterem crescimento sustentável ao longo de gerações. Segundo ela, apenas 39% das empresas brasileiras chegam à segunda geração e apenas 5% alcançam a terceira geração, cenário frequentemente relacionado à ausência de estruturas robustas de governança corporativa.
Ainda de acordo com Carolina, esse desafio tende a se intensificar à medida que empresas incorporam inteligência artificial em processos cada vez mais críticos.
Corrida por IA avança mais rápido do que a maturidade das empresas
Outro ponto levantado durante o painel foi a velocidade com que empresas estão direcionando investimentos para inteligência artificial.
A gestora da KPMG citou dados de uma pesquisa global da empresa que pertence realizada com mais de 5 mil empresas ao redor do mundo que mostram que apenas 10% das organizações afirmam estar atualmente em estágio avançado de maturidade em IA. Ao mesmo tempo, cerca de 50% afirmam que pretendem alcançar esse patamar ainda em 2026.
A executiva também destacou dados do Gartner que apontam que os investimentos globais em inteligência artificial devem alcançar US$ 2,5 trilhões em 2026, com crescimento anual entre 30% e 40%. Segundo ela, aproximadamente 20% desse volume está concentrado na indústria financeira, enquanto cerca de 30% já são destinados especificamente para inteligência artificial generativa.
“Todo mundo está acelerando investimentos, trazendo novos projetos e tentando ganhar velocidade. O problema é que muitas empresas ainda não consolidaram os fundamentos necessários para sustentar essa transformação”, disse.
Segundo os debatedores, a ausência desses fundamentos pode aumentar riscos operacionais, financeiros e reputacionais no médio prazo.
O desafio de sair dos pilotos e gerar valor real
Na avaliação de Oliver de Paula, um dos principais gargalos atuais está na dificuldade das empresas em transformar projetos-piloto em operações escaláveis.
Segundo o executivo do Banco BS2, muitas organizações ainda permanecem presas em provas de conceito enquanto empresas mais maduras já estão utilizando inteligência artificial para gerar eficiência operacional em larga escala.
Oliver ainda destacou que esse desafio é ainda mais sensível em setores regulados, especialmente diante de movimentos como open finance, tokenização e digitalização acelerada do sistema financeiro. “Precisamos encontrar formas de acelerar inovação sem comprometer segurança, compliance e estabilidade operacional”, disse.
Ele explicou que empresas do setor financeiro têm adotado arquiteturas mais modulares e estruturas baseadas em microsserviços para responder com mais agilidade às mudanças regulatórias e às novas demandas do mercado.
IA exige transformação cultural dentro das empresas
Para André Fernandes da Vertigo, parte das frustrações das empresas com inteligência artificial acontece porque muitas organizações ainda tratam a tecnologia como um projeto paralelo.
Segundo o executivo, IA precisa ser incorporada como uma nova capacidade organizacional e não apenas como uma ferramenta adicional. “Quando a empresa trata IA apenas como uma tecnologia complementar, os ganhos tendem a ser limitados. O impacto real acontece quando há mudança cultural, revisão de processos e adaptação da operação”, ressaltou.
André também alertou que ganhos marginais de produtividade podem indicar que a implementação ainda está sendo feita de forma superficial.
“Se a empresa está ganhando apenas 10% ou 20% de produtividade em tarefas específicas, provavelmente ainda não está explorando todo o potencial da tecnologia”, disse.
IA precisa chegar ao board como agenda de crescimento e risco
Outro consenso entre os participantes foi a necessidade de ampliar o debate sobre inteligência artificial dentro das estruturas de liderança das empresas.
De acordo com os executivos, líderes de tecnologia precisam levar o tema aos conselhos administrativos e à alta liderança sob duas perspectivas simultâneas: oportunidade de crescimento e mitigação de riscos.
Entre os riscos citados durante o painel estão falhas operacionais, problemas regulatórios, exposição de dados sensíveis e impactos reputacionais relacionados ao uso inadequado da tecnologia.
Na avaliação dos participantes, empresas que conseguirem equilibrar inovação, arquitetura robusta, governança e cultura organizacional terão maior capacidade de capturar valor real com inteligência artificial nos próximos anos.
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