Por Éric Machado, especialista em gestão de TI e Supply Chain

Durante um tempo, bastava mencionar inteligência artificial em uma apresentação para que a empresa fosse imediatamente associada à inovação, à modernidade e à capacidade de antecipar tendências. Na prática, esse movimento não ficou no passado. Ainda hoje, falar de IA continua funcionando como um forte marcador reputacional no ambiente corporativo, especialmente em setores pressionados por transformação digital e competitividade. O ponto é que, ao mesmo tempo em que o entusiasmo permanece elevado, começa a surgir uma cobrança cada vez mais concreta por retorno financeiro, eficiência operacional e impacto mensurável no negócio.
O mercado vive, neste momento, a convivência entre empolgação e cobrança. A inteligência artificial segue no auge do hype, impulsionada pela expansão acelerada de modelos generativos, automação avançada, agentes inteligentes e novas aplicações empresariais. Os investimentos continuam robustos, as lideranças seguem pressionadas a demonstrar capacidade de adoção e a presença do tema ainda ocupa espaço central em conselhos, reuniões estratégicas e planos de crescimento. Ao mesmo tempo, cresce a expectativa de que toda essa mobilização comece a se traduzir em resultado efetivo.
É justamente nessa tensão que se revela a diferença entre presença tecnológica e geração de valor. Muitas organizações ainda operam em uma lógica de adoção orientada mais pela pressão de mercado do que por uma estratégia clara de negócio. Contratam plataformas, iniciam pilotos, treinam modelos e anunciam iniciativas com forte apelo institucional, mas sem conexão direta com indicadores financeiros, metas operacionais ou ganhos de produtividade claramente definidos. O problema não está em experimentar, mas em transformar a experimentação em um processo permanente sem critérios de escala, governança e mensuração.
Hoje, a maturidade ainda é exceção, não regra. O cenário é marcado por uma sobreposição de realidades. De um lado, há empresas que já começam a capturar ganhos reais em áreas como precificação, crédito, logística, atendimento, previsão de demanda e alocação de recursos. De outro, permanece dominante um grande volume de iniciativas fragmentadas, guiadas por urgência competitiva, narrativa de inovação ou receio de ficar para trás. Em muitos casos, a decisão de investir em IA ainda nasce menos de uma convicção estratégica e mais da necessidade de responder ao ambiente externo.
Nesse contexto, a discussão sobre retorno sobre investimento começa a ganhar protagonismo. A pressão por ROI ainda não se consolidou como prática madura na maior parte do mercado, mas já passou a influenciar decisões orçamentárias e expectativas de liderança. A pergunta deixou de ser apenas sobre adoção tecnológica e passou a envolver margem, redução de custos, aceleração de processos e impacto direto na competitividade. Para a maioria das empresas, essa resposta ainda está em construção.
A crítica mais relevante, portanto, não é à tecnologia em si, mas à adoção desestruturada. O comportamento ainda dominante é o acúmulo de soluções sem integração ao core do negócio. Sem governança de dados, arquitetura de informação consistente, critérios de rastreabilidade e metas de performance, a inteligência artificial corre o risco de se transformar em mais uma camada de complexidade operacional. Nesse cenário, o que deveria gerar eficiência passa a produzir retrabalho, dependência tecnológica e aumento silencioso de custos.
Quando a IA passa a influenciar decisões críticas de negócio, ela deixa de ser apenas ferramenta de apoio e se torna parte da infraestrutura estratégica da empresa. É nesse ponto que a governança deixa de ser diferencial e passa a ser condição mínima. Escalar automação sem controle, delegar autonomia algorítmica sem limites claros e operar sem visibilidade sobre impacto e risco não representa sofisticação. Representa fragilidade operacional em um ambiente que já está sob intensa pressão por performance.
O mercado ainda está longe de um estágio de maturidade ampla, e esse talvez seja o ponto mais importante. Não se trata de um cenário em que alguns já entenderam tudo e outros apenas resistem à mudança. A disputa real está em quem conseguirá transformar a pressão atual por adoção em resultado mensurável antes dos concorrentes. A vantagem competitiva não estará necessariamente com quem investe primeiro, mas com quem consegue estruturar melhor, medir com rigor e conectar tecnologia à geração de valor.
A inteligência artificial continua no centro da narrativa corporativa e deve permanecer assim nos próximos anos. O diferencial, daqui para frente, estará menos no discurso e mais na capacidade de converter expectativa em consequência financeira concreta. Em um mercado ainda tomado pela euforia, serão líderes as empresas que conseguirem transformar entusiasmo em execução disciplinada e investimento em resultado real
Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/69637040-uma-ampliacao-vidro-focos-em-a-ai-lasca-em-uma-o-circuito-quadro-simbolizando-a-exploracao-do-artificial-inteligencia