Por José Geraldo de Araújo Guimarães, professor de Administraçãoda Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

Na semana passada tive a oportunidade de partcipar da SP Innovation Week, um evento plural e conectado com a fronteira do conhecimento. Entre centenas de palestras sobre inovação, cidades inteligentes, moda, gastronomia, tecnologia e sociedade, um tema se impôs com especial força: a Inteligência Artificial.
A conferência do filósofo francês Luc Ferry, intitulada "IA: grande substituição ou complementaridade?", foi uma daquelas experiências que objetiva tirar a plateia de sua zona de conforto. Mais do que falar de tecnologia, Ferry convida todos a pensar sobre ética, trabalho, política, educação e, sobretudo, sobre o futuro do próprio ser humano.
Sua provocação inicial foi direta: talvez seja uma ingenuidade acreditar que a IA ainda seja uma ferramenta limitada, que erra muito, alucina e, portanto, não ameaça de fato a inteligência humana. Segundo ele, os sistemas mais avançados já atingiram um nível que não imaginávamos há poucos anos. A IA lê, traduz, calcula, compara, sintetiza e produz conhecimento em uma escala inalcançável para qualquer indivíduo. O exemplo citado por Ferry é emblemático: páginas de Kant, cuja tradução exigiria anos de estudo, podem ser vertidas em minutos e sem nenhum erro.
E é exatamente aí que começa o problema. Inteligência não é sinônimo de caráter. A IA é treinada, orientada e programada por pessoas, instituições e empresas. Por isso, pode carregar vieses, interesses, manipulações e visões de mundo. Tanto pode ajudar a curar doenças, como também pode fabricar mentiras. Pode ampliar o acesso ao conhecimento, mas também pode destruir a confiança pública por meio de deepfakes, fraudes, desinformação e manipulação política.
No campo do trabalho, a reflexão é ainda mais inquietante. Durante muito tempo, acreditou-se que a automação substituiria sobretudo tarefas repetitivas e operacionais. Agora, a ameaça alcança também profissões intelectuais: tradutores, advogados, professores, administradores, médicos, analistas e executivos. A IA não atinge apenas a base da pirâmide. Ela chega ao centro das atividades cognitivas que, até pouco tempo, eram consideradas exclusivamente humanas.
Há quem recorra à ideia de Schumpeter e da destruição criativa para afirmar que novos empregos surgirão, como ocorreu em outras revoluções tecnológicas. Talvez. Mas Luc Ferry alerta que esta revolução é diferente. A IA generativa não apenas automatiza força física ou processos mecânicos; ela automatiza linguagem, análise, decisão, imagem, voz e raciocínio. Por isso, não se trata apenas de substituir ferramentas, mas sim de repensar a própria função social do trabalho.
E aqui surge a questão mais profunda: o que será do ser humano se o trabalho deixar de ser o principal organizador da vida? Uma renda mínima universal resolveria o problema econômico, mas não necessariamente o existencial. Férias eternas podem parecer atraentes como fantasia, porém, talvez, se transformem em vazio, isolamento e perda de propósito. Ferry propõe, por isso, pensar em novas formas de participação social: cuidar, ensinar, acompanhar, servir, conviver. Atividades que mantenham vínculos humanos e deem sentido à vida.
Ao final da palestra pode-se concluir que a principal resposta não está apenas na tecnologia, mas na formação humana. É preciso desenvolver pensamento crítico, responsabilidade ética, capacidade de interpretação e discernimento. A IA pode ser uma aliada extraordinária somente se soubermos perguntar, avaliar, duvidar e decidir.
O ser humano possui uma capacidade já provada de reinvenção, entretanto não é prudente tratar esta transformação com ingenuidade. Se o objetivo de Luc Ferry era nos incomodar, provocar e tirar da acomodação, ele foi plenamente alcançado. A grande pergunta permanece: a IA será nossa complementaridade ou nossa grande substituição? A resposta talvez dependa menos das máquinas e mais das escolhas que a sociedade fará agora.
*O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.
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