Por Cristovão Wanderley, CTO e sócio-diretor da Stratlab

Quando começaram a aparecer as primeiras notícias de que o ChatGPT poderia exibir anúncios com base nas conversas dos usuários, a reação do mercado foi quase imediata. Uma parte dele enxergou uma nova fronteira de mídia, enquanto a outra levantou algumas preocupações, que fazem sentido, sobre privacidade e confiança.
Ao olhar com mais calma para essa mudança, a gente percebe que a discussão central pode não estar associada a “ter ou não ter anúncios”. O ponto central aqui é o que esse movimento sinaliza sobre a evolução dos anúncios compartilhados no digital.
Durante duas décadas, a eficiência da mídia online teve como base o rastreamento. Cookies, dados comportamentais e histórico de navegação cruzado entre diferentes plataformas. Quanto mais dados sobre o usuário, maior a precisão da entrega do conteúdo.
A lógica era simples e o modelo funcionou bastante por um tempo. Por outro lado, ficou saturado e desgastado, gerando um ambiente regulatório cada vez mais restritivo.
Neste momento, estamos diante de um novo território. Segundo a própria OpenAI, qualquer anúncio publicitário precisa equilibrar expansão de acesso com proteção da experiência e transparência. E isso acontece em um contexto financeiro importante.
O CEO da empresa, Sam Altman, já havia demonstrado que não era totalmente a favor de colocar anúncios dentro do ChatGPT. Só que a empresa vive uma pressão forte por escala. São cerca de 800 milhões de usuários mensais e um compromisso de investimento estimado em US$ 1,4 trilhão em infraestrutura de IA nos próximos oito anos.
Dessa forma, a monetização é uma estratégia para sustentar todo o ecossistema. A diferença é que o ambiente de troca de ideias com a tecnologia muda a lógica tradicional. A conversa passa a ser um ponto de decisão, não apenas de descoberta.
Em muitos casos, a interação com a IA substitui etapas da jornada que a gente já conhece, como a busca e comparação de soluções e produtos, além da leitura de avaliações. Se anúncios entram nesse ambiente, eles deixam de disputar atenção em um feed e passam a disputar influência dentro de um raciocínio estruturado. A exigência de relevância aumenta.
Quem trabalha com marketing sabe que isso significa rever fundamentos. É preciso ir além da segmentação para ser semanticamente compreensível aos sistemas de automação que interpretam o contexto. Autoridade e consistência de dados ganham peso nessa nova estratégia.
Sob a perspectiva operacional, o desafio é outro. Monetizar conversas exige governança sólida, critérios transparentes e diferenciação clara entre conteúdo orgânico e patrocinado. Em um ambiente em que a IA se torna a nossa assistente pessoal, qualquer ruído na neutralidade pode influenciar na confiança que as pessoas têm na plataforma.
Talvez essa seja a transição de uma publicidade baseada em rastreamento para uma publicidade baseada em intenção e conversa. Quando o movimento se consolidar, veremos um grande impacto na forma como as empresas se relacionam com as pessoas. A relevância dentro dos contextos vai nos levar a outro nível estratégico.
A discussão se vai existir ou não os anúncios no ChatGPT ficou para trás. A questão é como construir um modelo sustentável em que estratégia e confiança andam juntas. Em ambientes mediados por IA, a relevância não é imposta. Ela precisa fazer sentido.
Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/35450996-chatgpt-conversacao-metodo-chatbot-assistente-artificial-inteligencia-ai-bate-papo-gpt-ai-tecnologia-para-ajudar-humanos-trabalhar-iluminado-luz-lampada-inspiracao-do-ideias-para-negocios-de-madeira-cubo