Por Flávio Calixto, CEO & Cofundador do Mitra
Durante anos, a discussão sobre novas tecnologias no ambiente corporativo foi dominada pela promessa de fazer mais em menos tempo. Agora, porém, começa a ganhar espaço um fenômeno que questiona diretamente essa lógica. O crescimento do chamado workslop mostra que velocidade e produtividade não são necessariamente a mesma coisa. Em muitas empresas, conteúdos, análises, relatórios e apresentações produzidos em poucos minutos chegam às equipes com aparência de qualidade, mas carregam erros, inconsistências ou falta de contexto que exigem revisão posterior. O resultado é um paradoxo cada vez mais evidente. Enquanto os indicadores de adoção tecnológica avançam, parte do tempo economizado em uma etapa do trabalho está sendo consumida novamente na etapa seguinte. O que deveria reduzir esforços passa a gerar uma nova camada de retrabalho invisível para gestores e lideranças.
Os dados ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Pesquisa conduzida pelo BetterUp Labs em parceria com o Stanford Social Media Lab e publicada pela Harvard Business Review mostrou que 40% dos profissionais receberam workslop no último mês e que cada ocorrência exigiu quase duas horas para correção. Mais revelador do que o volume é a natureza desse desperdício. Diferentemente de falhas operacionais tradicionais, que costumam ser identificadas rapidamente, o workslop exige leitura, checagem, interpretação e validação humana antes que o problema seja percebido. Trata-se de um custo distribuído entre diferentes profissionais, departamentos e etapas do processo. Por isso, ele raramente aparece nos relatórios de desempenho. O mesmo estudo estima um prejuízo médio de US$ 186 por funcionário ao mês. Em uma empresa com dez mil colaboradores, isso representa mais de US$ 9 milhões anuais destinados não à geração de valor, mas à correção de algo que já havia sido considerado concluído. Quando uma organização passa a investir recursos crescentes para revisar aquilo que produziu, o ganho de produtividade deixa de existir na prática.
O impacto não se restringe aos números financeiros. A mesma pesquisa identificou que profissionais que compartilham workslop são vistos como menos criativos por 54% dos colegas, menos confiáveis por 42% e menos inteligentes por 37%. Esses dados revelam uma consequência frequentemente ignorada. O excesso de material produzido sem critério compromete a confiança, elemento essencial para o funcionamento de qualquer organização complexa. Em empresas, decisões dependem da credibilidade das informações que circulam entre áreas. Quando gestores passam a desconfiar da qualidade do que recebem, surge um comportamento defensivo. Relatórios são conferidos mais vezes, análises são submetidas a verificações extras e aprovações levam mais tempo. O prejuízo não está apenas no conteúdo defeituoso, mas na deterioração gradual da confiança que sustenta a velocidade das decisões corporativas.
O cenário torna-se ainda mais preocupante quando observado à luz da fragmentação tecnológica existente nas empresas. Segundo a Salesforce, 81% dos líderes empresariais afirmam que dados espalhados entre sistemas diferentes prejudicam a tomada de decisão. Esse dado ajuda a compreender por que o workslop se tornou um problema estrutural e não apenas operacional. Quando informações estão distribuídas entre plataformas desconectadas, qualquer conteúdo produzido sem acesso ao contexto completo tende a reproduzir lacunas, contradições e interpretações parciais. O problema, portanto, não nasce na geração do material, mas na incapacidade de conectá-lo à realidade do negócio. Nesse ambiente, a tecnologia frequentemente acelera a produção de respostas sem acelerar a produção de conhecimento. O resultado é um volume crescente de entregas que parecem úteis à primeira vista, mas que exigem intervenção humana constante para se tornarem confiáveis.
É justamente por isso que a explicação mais comum para o fenômeno se mostra insuficiente. Atribuir o workslop à juventude das ferramentas ou à suposta falta de maturidade tecnológica significa ignorar evidências importantes. Um levantamento da Gartner mostrou que 72% das organizações da cadeia de suprimentos já utilizam soluções generativas, mas os ganhos individuais de produtividade não estão se convertendo em melhorias organizacionais equivalentes. A conclusão é significativa porque desmonta a ideia de que o problema será resolvido apenas com ferramentas mais avançadas. Se a tecnologia acelera a execução individual, mas a empresa continua perdendo tempo para validar, corrigir e reconciliar informações, o gargalo está na estrutura dos processos. Não se trata de produzir mais rápido, mas de garantir que aquilo que foi produzido possa ser utilizado sem gerar trabalho adicional para outras pessoas.
O avanço do workslop representa, na verdade, um teste de maturidade para o mundo corporativo. Empresas que medem sucesso pelo volume de conteúdo gerado ou pela quantidade de processos automatizados correm o risco de confundir atividade com resultado. O que os dados recentes demonstram é que produtividade não pode ser calculada apenas pelo tempo economizado na criação de uma tarefa, mas pelo esforço total necessário para que ela gere valor real. Se um relatório produzido em dez minutos exige duas horas de revisão posterior, o problema não é de eficiência, mas de ilusão de eficiência. O debate relevante para os próximos anos não será sobre quem consegue produzir mais informações, e sim sobre quem consegue produzir informações confiáveis o suficiente para eliminar etapas de validação, reduzir retrabalho e acelerar decisões. É nessa diferença que estará a verdadeira vantagem competitiva.
Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/8885376-isometrica-inteligencia-artificial