Pix movimenta bilhões, mas engenharia social transforma sistema no principal alvo de fraudes digitais

Pix movimenta bilhões, mas engenharia social transforma sistema no principal alvo de fraudes digitais

Em um ano, 24 milhões de brasileiros foram vítimas de fraudes envolvendo transferências instantâneas, com prejuízo de R$ 29 bilhões. O sistema não tem falhas técnicas, e é exatamente isso que torna o problema mais difícil de resolver

O Pix não falhou. Em cinco anos, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central se tornou o meio de pagamento mais usado do Brasil, responsável por mais de 80% das transferências e pagamentos realizados no país, com mais de 62 bilhões de transações registradas em 2024, segundo o Banco Central. Mas essa mesma onipresença fez do Pix o principal vetor de golpes financeiros do país. Entre julho de 2024 e junho de 2025, mais de 24 milhões de brasileiros foram vítimas de fraudes envolvendo Pix ou boletos bancários, com prejuízo estimado em R$ 29 bilhões, segundo a Febraban.

O paradoxo está no centro do problema: os aplicativos bancários permanecem inviolados. As fraudes ocorrem principalmente por engenharia social, técnicas de manipulação psicológica que induzem a própria vítima a autorizar a transferência. Quando o elo fraco é humano, nenhuma atualização de sistema resolve.

"O Pix reúne três características que, combinadas, são o cenário ideal para um golpista: velocidade, irreversibilidade e adesão massiva. O criminoso não precisa invadir nada, ele só precisa convencer", afirma Nassor de Oliveira Ramos, analista de Compliance da UnicoPag, intermediadora de pagamentos digitais.

O volume de tentativas cresce em ritmo acelerado. Só no primeiro semestre de 2025, as tentativas de fraude digital cresceram 56% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a BioCatch. A Serasa Experian registrou quase 7 milhões de tentativas de fraude no mesmo período, uma ocorrência a cada 2,3 segundos. Os pedidos de devolução ao Banco Central saltaram de 2,5 milhões em 2023 para quase 5 milhões em 2024, segundo o próprio Banco Central.

Os golpes também estão ficando mais sofisticados. Os casos de fraude ligados a dispositivos roubados triplicaram em 2025, enquanto os golpes da "falsa central", em que criminosos se passam por atendentes de instituições financeiras, dobraram no mesmo período, de acordo com a BioCatch. A versão mais recente do "golpe do Pix errado" passou a explorar o próprio Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central, criado para proteger vítimas de fraude, como ferramenta para causar prejuízo em dobro, modalidade que ganhou força a partir de fevereiro de 2026.

"As fraudes não estão só mais sofisticadas. O consumidor também está mais exposto, porque usa o Pix para tudo, a qualquer hora, muitas vezes sem atenção ao contexto. Essa combinação é o que os criminosos exploram. A sofisticação do golpe serve para vencer a desconfiança de quem já deveria saber se proteger", avalia Ramos.

O perfil das vítimas também mudou. O indicador da Serasa Experian do primeiro semestre de 2025 revelou alta de 43% nas tentativas de golpe contra jovens de até 25 anos, superando pela primeira vez as investidas contra pessoas acima de 50 anos. Entre os mais velhos, os boletos falsos ainda dominam; entre os mais jovens, as fraudes em compras online são o principal vetor.

Para as intermediadoras de pagamento, o desafio está em atuar numa camada que os bancos nem sempre alcançam. "Nossa posição no ecossistema nos permite monitorar padrões transacionais em tempo real e identificar comportamentos suspeitos antes que o dano chegue ao consumidor final. Tecnologias de análise de risco cruzam variáveis como histórico do dispositivo, geolocalização, frequência e valor das transações para sinalizar operações fora do padrão. Isso não impede o golpe quando a própria vítima autoriza a transferência, mas reduz significativamente a janela de ação do criminoso dentro do sistema", explica Ramos.

Há ainda um ponto que o setor precisa enfrentar com mais honestidade. "Existe uma confusão recorrente entre fraude e desacordo comercial. Nem todo Pix enviado sem retorno é golpe, mas a ausência de entrega e a dificuldade de reversão criam essa percepção, e isso corrói a confiança no sistema como um todo", diz o especialista.

A questão da responsabilidade jurídica ainda está em construção. Em novembro de 2025, a Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais fixou tese de que, em fraudes via Pix por engenharia social, a responsabilidade das instituições financeiras é objetiva, mas pode ser afastada se ficar comprovado que o dano decorreu de culpa exclusiva do consumidor. Na prática, cada caso ainda depende de análise individual, e o consumidor raramente sabe a quem recorrer.

As instituições financeiras investiram R$ 47 bilhões em tecnologia ao longo de 2025, sendo R$ 4,7 bilhões destinados exclusivamente à segurança e prevenção a fraudes, segundo a Febraban. O dinheiro está sendo gasto no lugar certo, mas ainda é insuficiente sem uma contrapartida regulatória e educacional à altura.

"O sistema precisa evoluir em três frentes simultaneamente: mais tecnologia de prevenção por parte das intermediadoras e bancos, regulação mais clara sobre responsabilidades quando a vítima autoriza o próprio golpe, e educação digital do consumidor como política pública, não como campanha pontual. Enquanto essas três frentes não avançarem juntas, o Pix vai continuar sendo usado como ferramenta de fraude, não por falha sua, mas por falha do ecossistema em preparar as pessoas para usá-lo com segurança", conclui Ramos.

Imagem: https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/41005213-vetor-icone-simbolo-pix-forma-de-pagamento-metodo-luz-fundo

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