A forma como consumidores encontram informações, produtos e serviços na internet está passando por uma das maiores transformações desde a criação dos mecanismos de busca. Com a expansão global de recursos de inteligência artificial como AI Overviews e AI Mode, o Google deixa de atuar apenas como um intermediário entre usuários e sites para assumir um papel cada vez mais ativo na interpretação, síntese e recomendação de conteúdos.
A mudança já provoca impactos concretos no marketing digital e nas estratégias de visibilidade das marcas. Estudos recentes indicam que páginas de resultados com resumos gerados por IA registram taxas de clique significativamente menores do que buscas tradicionais. Uma análise do Pew Research Center mostrou que usuários clicam em links em apenas 8% das pesquisas que exibem AI Overviews, contra 15% nas buscas convencionais. Estudos independentes apontam quedas expressivas na taxa de clique quando o AI Overview aparece — da ordem de 35% a 50% em média, chegando a mais de 70% para sites de notícias no topo dos resultados.
Para Letícia Bernardino, Associate Partner e SEO Manager da Cadastra, a transformação vai muito além de uma atualização tecnológica. "O Google não está apenas mudando a forma como as pessoas pesquisam. Está mudando a forma como marcas são descobertas, avaliadas e escolhidas. A disputa deixa de acontecer apenas nos resultados da busca e passa a ocorrer dentro das próprias respostas geradas pela inteligência artificial", afirma.
Segundo a especialista, o movimento acelera a adoção do chamado GEO (Generative Engine Optimization), conjunto de estratégias voltadas para aumentar a presença de marcas nas respostas produzidas por sistemas de IA. Até recentemente, o objetivo das empresas era conquistar posições privilegiadas entre os resultados orgânicos. Agora, a prioridade passa a ser construir credibilidade suficiente para que a própria IA reconheça determinada marca como fonte confiável de informação.
"A autoridade sempre foi importante para o Google, mas a IA amplia o peso desse fator. Não basta mais otimizar palavras-chave. As empresas precisam demonstrar conhecimento, consistência, reputação e experiência real para serem consideradas referências pelos modelos de inteligência artificial", explica Letícia.
Nesse cenário, conteúdos genéricos tendem a perder relevância. Ganham espaço materiais que oferecem análises próprias, dados exclusivos, experiências práticas e conhecimento construído no dia a dia das operações. A mudança também afeta diretamente setores como varejo, turismo, educação, finanças e tecnologia.
Com o avanço dos chamados agentes inteligentes — sistemas capazes de comparar produtos, analisar alternativas e até executar tarefas em nome dos usuários — informações como avaliações, especificações técnicas, disponibilidade de estoque e políticas comerciais passam a ter papel estratégico na visibilidade digital das empresas.
De acordo com Letícia, o desafio das organizações será adaptar suas estratégias para uma realidade em que parte significativa da jornada de compra acontece antes mesmo da visita ao site. "O futuro da descoberta digital será menos baseado em páginas e mais baseado em confiança. As marcas que conseguirem construir autoridade reconhecida terão mais chances de permanecer relevantes em um ambiente em que a inteligência artificial se torna a principal intermediária entre consumidores e informação", conclui.
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