Caso de profissional que atuava simultaneamente para empresas vítimas e para um grupo de ransomware reforça que controles internos e governança de acessos se tornaram tão importantes quanto as ferramentas de proteção digital
Durante anos, a principal preocupação das empresas em relação à segurança digital esteve voltada para invasores externos. Firewalls, antivírus, sistemas de detecção e monitoramento passaram a fazer parte da rotina corporativa. No entanto, especialistas alertam que um dos riscos que mais cresce atualmente pode estar justamente dentro das organizações: pessoas com acesso legítimo aos sistemas e às informações estratégicas.
Funcionários, consultores, fornecedores e prestadores de serviço frequentemente recebem permissões para acessar dados críticos, participar da resposta a incidentes e conduzir processos sensíveis. Quando esses privilégios são utilizados de forma inadequada, seja por interesse financeiro, má-fé, negligência ou até coação, o impacto pode ser tão devastador quanto um ataque realizado por hackers externos.
Esse cenário ganhou repercussão internacional após a condenação, nos Estados Unidos, de Angelo Martino, profissional contratado para negociar ataques de ransomware em nome de empresas vítimas. As investigações apontaram que ele atuava secretamente em benefício do grupo criminoso BlackCat (ALPHV), utilizando o acesso privilegiado às informações das organizações para favorecer os criminosos durante as negociações e lucrar com os pagamentos de resgates.
Para Afonso Morais, sócio da Pardi e Morais Advogados e especialista em fraudes digitais, o episódio serve como um alerta para organizações brasileiras de todos os segmentos. "A segurança da informação deixou de depender apenas da capacidade de impedir invasões externas. Hoje, um dos maiores desafios é controlar adequadamente quem possui acesso às informações críticas e garantir que esses privilégios sejam utilizados dentro de critérios rigorosos de governança. Muitas empresas investem fortemente em tecnologia, mas ainda tratam a gestão de acessos e de terceiros como uma questão secundária", afirma.
Segundo Morais, a ameaça interna, conhecida internacionalmente como insider threat, tem ganhado relevância justamente porque explora um dos ativos mais difíceis de controlar: a confiança. Em muitos casos, os criminosos não precisam romper barreiras tecnológicas sofisticadas quando conseguem utilizar credenciais legítimas ou explorar profissionais que já fazem parte da operação da empresa.
"As organizações costumam concentrar esforços para impedir que alguém invada seus sistemas. Porém, é igualmente importante monitorar quem já está autorizado a entrar. O princípio do menor privilégio, a segregação de funções, a revisão periódica dos acessos e o acompanhamento contínuo das atividades realizadas por colaboradores e terceiros são medidas fundamentais para reduzir esse tipo de risco", explica.
Além dos prejuízos financeiros provocados por ataques de ransomware, falhas na gestão de acessos podem resultar em vazamento de informações estratégicas, paralisação das operações, responsabilização decorrente da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), perda de propriedade intelectual e danos significativos à reputação da organização.
Entre as principais recomendações do especialista estão:
- adoção do princípio do menor privilégio, concedendo apenas os acessos indispensáveis para cada função;
- segregação de atividades críticas para evitar concentração excessiva de poderes em um único profissional;
- realização de due diligence periódica sobre colaboradores, fornecedores e prestadores de serviços estratégicos;
- implementação de monitoramento contínuo de logs e comportamentos anômalos nos sistemas;
- revisão imediata dos acessos sempre que houver mudança de função ou encerramento de contratos;
- fortalecimento das cláusulas contratuais relacionadas à confidencialidade, segurança da informação e responsabilidade sobre incidentes.
"O caso ocorrido nos Estados Unidos mostra que a tecnologia, por si só, não é suficiente para proteger uma organização. Segurança cibernética também depende de governança, auditoria permanente e da capacidade de verificar continuamente se as pessoas que possuem acesso aos dados mais sensíveis continuam sendo dignas dessa confiança. Hoje, tão importante quanto impedir um hacker de entrar é garantir que quem já está dentro não se transforme na maior vulnerabilidade da empresa", conclui Afonso Morais.
Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/11224723-tecnologia-de-computador-hackeada-numero-de-codigo-binario-alerta-de-dados-erro-de-hacker-na-tela-de-exibicao