Brasil vira epicentro de ransomware na saúde na América Latina; especialistas alertam para riscos de IA sem governança

Brasil vira epicentro de ransomware na saúde na América Latina; especialistas alertam para riscos de IA sem governança

Por Rafael Franco, CEO da Joya Solutions e Joya Med

A saúde ultrapassou o setor financeiro e se tornou o principal alvo de ataques cibernéticos no mundo, segundo a pesquisa Digital Trust Insights da PwC. No Brasil, o quadro é ainda mais crítico: o país se consolidou em 2026 como o epicentro do ransomware em saúde na América Latina, concentrando 51% das ocorrências da região e figurando entre os três maiores alvos globais do setor. Por trás dos números está uma rotina que passou a expor prontuários, exames e históricos médicos de forma silenciosa: o tráfego crescente desses dados por chatbots amadores, plataformas não criptografadas e IA generativa adotada sem qualquer governança.

O caso mais recente que ilustra esse risco no Brasil envolveu a empresa MedicSolution: em setembro de 2025, um grupo de cibercriminosos explorou um servidor em nuvem mal configurado e teve acesso a cerca de 34 GB de dados, quase 94 mil arquivos com prontuários, exames e imagens de pacientes, incluindo menores de idade. O episódio reforça que boa parte do risco em saúde hoje não vem de ataques sofisticados, mas de erros de configuração básicos e do uso displicente de ferramentas de terceiros.

Para Rafael Franco, CEO da Joya Solutions e Joya Med, o problema começa antes do ataque em si, mas na decisão de adotar tecnologia sem entender para onde os dados estão indo:

"Vários consultórios e clínicas adotam ferramentas de automação e inteligência artificial para agilizar o atendimento, mas ignoram para onde esses dados estão indo. Inserir sintomas, históricos clínicos ou documentos de pacientes em plataformas públicas ou sistemas sem criptografia ponta a ponta é uma violação grave do sigilo médico e da LGPD. Na medicina de alto padrão, a segurança da informação precisa ser tratada com a mesma rigidez que a assepsia de um centro cirúrgico," alerta o tecnólogo.

O que mudou na régua regulatória

A discussão ganhou urgência jurídica em 2026. A Lei nº 15.352/2026 transformou a ANPD em autarquia de natureza especial, com poder de fiscalização ampliado sobre o tratamento de dados sensíveis: categoria que inclui, por definição da própria LGPD, todo dado de saúde. Na mesma direção, a Resolução CFM nº 2.454/2026 estabeleceu o primeiro marco brasileiro sobre uso de inteligência artificial na medicina, com vigência a partir de agosto. Para Franco, o recado é direto:

"Não existe mais a desculpa da tecnologia recente. A régua já foi definida, tanto pela ANPD quanto pelo CFM. Quem trata dado de paciente com a mesma leveza de um chatbot de e-commerce está operando na ilegalidade,  só ainda não foi flagrado."

Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/74777601-de-madeira-blocos-soletracao-fraude-em-uma-vibrante-amarelo-fundo-representando-financeiro-crime-e-decepcao-criando-uma-sentido-do-risco-e-consciencia-dentro-a-o-negocio-mundo-e-promovendo-vigilancia

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