A entrevista desta edição da Document Management traz o Vice-Presidente do Gartner Brasil, Cássio Dreyfuss, que explica por que o mercado mundial está totalmente voltado para as aplicações de Cloud Computing. Hoje, o cloud deve ser entendido não mais como uma “onda” passageira, um modismo do mercado, mas como uma nova forma de se fazer, comprar e planejar os negócios.

Cerca de 98% das empresas não precisam ter uma arquitetura voltda para o cloud, pois haverá um híbrido entre o tradicional e a Web

[private] Document Management: Qual a sua visão sobre o mundo de TI estar se voltando para o mundo de cloud?
Cássio Dreyfuss: A oferta de produtos em cloud não ocorre especificamente numa área e faz todo o sentido que seja assim. O cloud computing é uma combinação de tecnologias que já existiam no mercado, só que agora empacotadas como serviço.

Tudo já está aí. Sobre virtualização, já se fala há muito tempo; software como serviço, etc. O que as pessoas podem estar se perguntando é por que antes não deu certo e agora sim. Posso dizer que é uma combinação de fatores: é o momento adequado, o barateamento da tecnologia e a capacidade dos devices de absorver toda essa oferta. Então, não se trata de um momento, é uma tendência que já está se consolidando. O problema que pode estar gerando muita dúvida entre os executivos é que tudo agora é chamado de cloud. O Cloud não é uma tecnologia, é um conjunto de tecnologias, é um modelo. Tudo o que for oferecido como serviço por meio dessa modalidade é serviço na nuvem. E isso existe em todas as camadas: na de infraestrutura, na de plataforma, na camada acesso e nos processos de negócios.

No futuro, o mercado irá sem dúvida acabar definindo uma taxonomia mais adequada para este serviço. Vai criar outros nomes. Isso confunde os executivos de nível operacional até os próprios CIOs, porque os provedores hoje pegam qualquer produto que já tinham, rebatizam de “cloud” e passam a oferecer como se fossem novos produtos.  Hoje é preciso repensar as implicações desses produtos para as empresas e também como usá-los. Esse é um dos desafios dos CIOs.

DM: O que isso significa para o mercado mundial?
C.D.: Isso muda a maneira como as empresas vão consumir tecnologia, com consequências incríveis sobre as empresas e sobre a área de TI, e a forma como elas irão consumir os produtos de TI, pois irá mudar principalmente a forma como se realizam hoje. Há uma classe de trabalhadores que irá desaparecer, especialmente naquelas empresas em que a TI não é o principal negócio. As empresas deverão optar pelas razões que as fazem existir, ou seja, onde há sua expertise, no que a empresa tem seu foco, e aplicar seus conhecimentos para criar soluções de negócios, mas o TI não será o foco principal. Isso indica uma revolução na forma como as empresas vão utilizar a tecnologia e também nas possibilidades de usar a tecnologia.

DM: Como analista, como o senhor vê esta mudança?
C.D.: O Gartner tem clientes no mundo todo, estamos observando a tecnologia e temos condições de mapear como as empresas estão utilizando o cloud como inovação. Como inovação tecnológica, podem perguntar. Não, como inovação de negócios, na forma como as empresas operam. Aliás, somente para melhor entendimento, inovação é isso, quando se tem uma novidade tecnológica e a usamos para criar algo novo e quando aquilo que foi criado, passa a ser compartilhado por toda a empresa. Caso contrário, quando se trata apenas de uma novidade, pode ser classificado apenas como uma invenção. E quantas invenções não deram certo?

DM: Em termos de inovação, como as empresas estão usando o cloud?
C.D.: Vemos que as empresas estão utilizando o cloud de quatro maneiras diferentes. A primeira maneira óbvia é na infraestrutura, ou seja, trocar a infraestrutura que se tem, na qual se investiu muito em hardware e software para criar aquele data center (imóvel), por algo mais flexível, mais ágil, mais escalável.

Outro uso acontece quando se pode utilizar os serviços oferecidos na nuvem para montar novos processos de negócio, para oferecer algo novo, fazer uma coisa nova e oferecer sua expertise.

Pode ocorrer também quando se usa cloud como inovação mesmo. A bandeira do cloud possibilita criar novos negócios. Imagino que uma empresa possa estender sua cadeia de valor, oferecendo a seus clientes serviços de modo que eles venham a interagir com a TI da empresa e com as aplicações da empresa. Essa é uma maneira nova.

E, finalmente, como apoio às mídias sociais - o que chamamos de negócios sociais, que está tomando corpo rápido, e que só não está mais rápido porque as pessoas não sabem como utilizar. A tecnologia está aí e as empresas não usam porque ainda não equacionaram o porquê, e não sabem como fazer as redes sociais participarem de uma maneira positiva nos negócios da empresa, e evitar que sejam usadas negativamente, como alguns exemplos que existem no mercado. Existem notáveis possibilidades. Pensar que se pode usar a participação do cliente final nas características dos produtos oferecidos é, de fato, fascinante.

DM: Como os executivos poderão administrar esses novos usos?
C.D.: Acredito que a resposta é que, por isso mesmo, não se está utilizando essa ferramenta (mídias sociais) até que surjam outras áreas capazes de administrar esses inputs corretamente. Temos um exemplo clássico de um cliente da indústria farmacêutica, cujo pessoal de marketing descobriu que tinha nove mil representantes técnicos em todo o país. Eles queriam criar uma comunidade com essas pessoas, o que seria uma oportunidade sensacional para trocar idéias e melhores práticas, bem como outras informações do dia a dia. O CIO dessa empresa se viu pressionado, pois não sabia como administrar, por exemplo, problemas de segurança, privacidade de informação etc. Esse cliente partiu da premissa que existe uma nuvem privada, que é a nuvem de funcionários da empresa, uma outra nuvem criada para atender somente esses nove mil propagandistas e uma porta bem estreita que passa de uma nuvem para outra, com um controle muito rigoroso. Assim que este CIO aprender a lidar com estes dois mundos, essa porta será retirada entre eles.

O interessante é que este CIO não ficou parado. Ele deu continuidade à ideia e criou mecanismos próprios, até que possam surgir formas de lidar com os dois mundos. E trouxe vantagens para a empresa agora mesmo.

DM: Que parâmetros devem a ser observados quando esse modelo de negócios for incorporado pelas empresas?
C.D.: Hoje, esses modelos de contrato ainda não são estáveis, ao contrário de modelos tradicionais de contrato de outsourcing, que já sabemos como devem ser.  Na pesquisa do Gartner, temos até o layout de contrato, com todas as cláusulas de como montá-lo, com o que se deve preocupar etc.  Em relação aos modelos na nuvem, isso não existe ainda.

Ninguém está maduro, nem o provedor e nem o cliente. Se o contrato é um instrumento adequado para regular o relacionamento entre eles, o cuidado ainda deve ser grande.

Outro parâmetro diz respeito ao próprio custo do negócio. O CIO não sabe avaliar ainda se aquele é ou não um bom negócio. Não existem métricas para isso. Os analistas do Gartner são capazes de dizer num contrato tradicional de outsourcing se este tipo de serviço, em determinada região, possui um valor variável entre X ou Y,  de acordo com os requisitos das empresas, mas isso ainda não existe para serviços em cloud.

DM: Que outras observações o senhor faz aos executivos que desejam partir para este tipo de negócio?
C.D.: Cuidados com segurança são sempre recomendados. Porém, há um outro fator que é mais importante. Hoje, todas as empresas têm uma arquitetura tradicional de TI e de serviços, e estamos recomendando aos nossos clientes que eles devem começar a se mover de uma arquitetura tradicional para uma arquitetura voltada à web, voltada à nuvem.

E completamos este alerta dizendo que 95% a 98% das empresas não precisam ter uma arquitetura voltada para o cloud, já que estudos mostram que o que vai acontecer é um híbrido entre a arquitetura tradicional e uma arquitetura voltada para a web. Os CIOs devem começar a andar nessa direção, para não serem engolidos pela tecnologia.

Infelizmente, não é isso que estamos vendo no mercado. Os executivos não estão percebendo que este programa, que terá um tempo para amadurecer de acordo com cada indústria, vai acabar acontecendo. Não estamos vendo as empresas brasileiras se moverem nessa direção.

Especialmente no Brasil, onde nos orgulhamos de ser criativos e inovadores, não estamos vendo nenhum movimento nesse sentido. Os motivos são subjetivos. Os CIOs brasileiros estão com receio de se tornarem irrelevantes e obsoletos, enfim, dispensáveis.

Vejo nos profissionais de TI as mesmas reações do passado, ao adotarem os modelos de outsourcing de TI tradicional. O CIO brasileiro e, por uma série de razões, o profissional de Ti em geral, são maquineiros. Isso quer dizer que, seja pelas dificuldades do passado com a importação de produtos, dificuldades de recursos, ou porque os fornecedores não traziam linhas completas de produtos,  eles se acostumaram a se virar com o que tinham.  Assim têm sido valorizados por décadas, é o que sabiam fazer. Hoje, com o cloud, há essa necessidade. Têm de enfrentar esse momento de decisão e para onde vão. Com a escassez de recursos humanos de TI no Brasil, não vão ficar sem emprego. Vão mudar de emprego. Se o profissional tem uma grande habilidade em TI, ele não vai ficar naquela empresa cujo core business não seja TI. Ele vai ter que migrar para as empresas de TI, embora não haja um contingente de formação profissional adequado.

DM: A que isso pode ser atribuído? Há falha na educação profissional?
C.D.: Não há formação adequada. As iniciativas de educação que deveriam ser tomadas em nível federal não estão sendo tomadas, e as que existem são tímidas. O perfil da formação desses profissionais fica aquém das necessidades do mercado e do novo perfil que este profissional deve ter no novo mercado. Nós vamos enfrentar escassez de recursos humanos dado o aumento do uso de recursos de TI, que está sendo puxado pela economia nacional crescente e estável e não é compatível com o volume e nível de formação desses profissionais no mercado.

O CIO brasileiro, que nunca pensou em fazer outsourcing fora do país, vai começar a pensar nessa possibilidade não só do ponto de vista de novas habilidades e possibilidades, mas principalmente devido à escassez de profissionais.

Só queria enfatizar a ideia de que o profissional de TI brasileiro já deveria ter começado a investigar o que fazer com o cloud, como isso vai impactar os negócios da empresa dele e a fazer um plano, nem que seja para uma adoção híbrida, como falamos. Ou ele faz esse planejamento ou as empresas passam por cima dele, e o fazem à sua revelia e adotam serviços na nuvem.

Claro que existe um papel claro para o TI, principalmente o de resolver todos esses desafios complexos que já listamos. Se as empresas fizerem por si só, poderão ter problemas. [/private]