Por César Ribeiro, diretor de Operações da SAMM.

A corrida pela inteligência artificial colocou chips, GPUs, data centers e energia no centro dos investimentos em tecnologia. Faz sentido. Sem capacidade computacional, a IA não escala. Mas existe uma pergunta menos glamourosa e tão importante quanto: as redes estão preparadas para o volume de dados que essa nova economia vai produzir?
Os primeiros sinais indicam que essa discussão não pode ser adiada. Pesquisa da Cisco em parceria com a Foundry, divulgada em junho de 2026, ouviu mais de 3,4 mil executivos de TI e redes em 15 países. Entre eles, 73% afirmaram que suas organizações já enfrentam ou esperam enfrentar limitações de capacidade nas redes de campus e filiais nos próximos dois anos. O tráfego aumentou 34% no último ano e a expectativa dos entrevistados é de crescimento de 209% nos próximos três.
A IA acrescenta uma pressão importante a essa equação. Dados observados em redes de provedores e divulgados pela Cisco mostram que o tráfego de inferência de inteligência artificial quadruplicou em oito meses. A companhia projeta que esse tipo de tráfego poderá representar 25% do tráfego total das redes em 2035. Com a disseminação de agentes de IA, a estimativa é que o tráfego corporativo possa chegar a nove vezes o volume atual no mesmo horizonte.
É muita informação circulando por uma infraestrutura que, para a maioria das pessoas, permanece invisível.
E talvez esteja aí um ponto ainda pouco discutido sobre a expansão da inteligência artificial. Estamos investindo pesadamente para aumentar a capacidade de processamento, mas processamento e conectividade não podem ser planejados separadamente.
Quando a rede deixa de ser assunto apenas da TI
A mudança fica mais evidente quando a IA sai do laboratório e entra na operação. Um agente não apenas responde a uma pergunta. Ele pode consultar diferentes bases de dados, acessar sistemas, executar tarefas, trocar informações com outras aplicações e tomar determinadas ações. Tudo isso exige comunicação entre diferentes ambientes.
Nesse contexto, capacidade de rede, redundância, diversidade de rotas, latência, observabilidade e segurança deixam de ser detalhes técnicos. Uma falha pode significar indisponibilidade de uma operação inteira.
E indisponibilidade custa caro.
Estudo da Splunk em parceria com a Oxford Economics, divulgado em maio deste ano, estima em US$ 600 bilhões por ano o impacto do downtime não planejado entre empresas do Global 2000. A pesquisa, realizada com 2 mil executivos em 20 países, chegou a um custo médio de aproximadamente US$ 15 mil por minuto de interrupção entre as organizações analisadas.
Outro levantamento traz um alerta ainda mais próximo da realidade de quem trabalha com infraestrutura. O Annual Outage Analysis 2026, do Uptime Institute, identificou que incidentes relacionados a fibra e conectividade estão aumentando e têm maior probabilidade de provocar interrupções prolongadas.
O mesmo estudo mostra que, entre os entrevistados que tiveram uma interrupção significativa recente, 57% estimaram prejuízos superiores a US$ 100 mil. Um em cada cinco relatou perdas acima de US$ 1 milhão.
Quem trabalha com infraestrutura sabe que falhas acontecerão. Não existe operação complexa completamente imune a elas. A diferença está na capacidade de impedir que uma falha localizada derrube uma operação inteira.
É por isso que redundância não pode ser tratada simplesmente como duplicação de custo. Ter alternativas de rota, capacidade disponível e visibilidade sobre a rede é parte da estratégia de continuidade do negócio.
Basta pensar no que hoje depende de conectividade: pagamentos, sistemas industriais, plataformas de comércio eletrônico, logística, serviços financeiros, aplicações em nuvem. A inteligência artificial entra nessa lista e tende a aumentar ainda mais essa dependência.
O Brasil precisa olhar para o ecossistema inteiro
O debate é especialmente relevante para o Brasil diante do volume de investimentos projetados para data centers.
Segundo dados apresentados pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em junho de 2026, o país tinha 38 GW em pedidos de parecer de acesso ao sistema elétrico relacionados a projetos de data centers. Uma parcela equivalente a 7,1 GW poderia representar cerca de R$ 159 bilhões em investimentos nos próximos anos, de acordo com o ministério.
É uma oportunidade enorme. Mas há um risco em concentrarmos a discussão apenas na quantidade de data centers que o Brasil conseguirá atrair.
Um data center não é uma ilha.
Quanto maior a capacidade de processamento instalada, maior tende a ser a necessidade de movimentar informações entre centros de dados, nuvens, empresas, dispositivos e usuários. Energia, processamento e conectividade fazem parte da mesma infraestrutura digital. Segurança e redundância também.
Estamos colocando bilhões em capacidade computacional e há boas razões para isso. A próxima etapa é garantir que essa capacidade consiga operar com disponibilidade compatível com a importância que a tecnologia assumirá nos negócios.
Para quem está na operação, essa discussão é bastante concreta. Não importa o quanto uma aplicação seja sofisticada se o dado não chega, se uma rota fica indisponível ou se não existe alternativa quando alguma coisa falha.
Talvez por isso a próxima grande discussão sobre IA seja menos sobre aquilo que aparece na tela e mais sobre tudo o que precisa funcionar para que aquela resposta apareça.
A inteligência artificial opera na velocidade do software, mas depende do mundo físico. Existem fibras, equipamentos, rotas, energia e centros de processamento por trás de uma experiência que o usuário percebe como instantânea.
A corrida pela IA, portanto, não será apenas por melhores modelos ou maior capacidade computacional. Será também por redes capazes de suportar essa transformação com disponibilidade e resiliência.
Porque, quando infraestrutura funciona bem, quase ninguém percebe que ela existe. Quando deixa de funcionar, todo mundo percebe.
Imagem: https://pt.vecteezy.com/arte-vetorial/2089475-isometrica-inteligencia-artificial