A IA já não exige infraestrutura gigante. O gargalo agora está dentro das empresas

A IA já não exige infraestrutura gigante. O gargalo agora está dentro das empresas

Chegada de recursos de IA a óculos inteligentes mostram como a tecnologia está se aproximando do cotidiano; especialista aponta o que empresas precisam revisar para não investir sem conseguir aplicar

A inteligência artificial está chegando a dispositivos cada vez mais comuns. Na segunda-feira (10), a Meta lançou o Muse Glimmer, modelo de 30 bilhões de parâmetros desenvolvido para executar tarefas de IA localmente em computadores com uma única GPU de consumo, reduzindo a dependência de estruturas de nuvem. O movimento ocorre poucas semanas depois de a Samsung apresentar sua nova geração de óculos inteligentes com recursos de IA integrados ao uso cotidiano. Para as empresas brasileiras, a mudança levanta uma questão menos tecnológica e mais estratégica: se o acesso às ferramentas está ficando mais simples, o que precisa estar preparado dentro da operação para que elas realmente tenham utilidade?

“Durante muito tempo, a discussão sobre IA nas empresas ficou concentrada na escolha da ferramenta. Isso está ficando secundário. Quando modelos capazes de executar tarefas localmente chegam a equipamentos de uso comum, o empresário precisa olhar para dentro da própria operação e identificar onde existe informação mal aproveitada, processo que depende demais de pessoas ou decisão que poderia ser apoiada por sistemas. O valor não está em ter uma IA instalada, mas em saber exatamente qual problema do negócio ela vai resolver”, afirma Dema Oliveira, CEO e fundador da Goshen Land.

O primeiro passo é fazer um mapa de processos antes de escolher qualquer ferramenta. Atendimento, vendas, elaboração de propostas, análise de documentos, cobrança e acompanhamento de indicadores podem esconder tarefas que consomem horas sem necessariamente exigir trabalho humano em todas as etapas. A recomendação é identificar os pontos de maior repetição, retrabalho e espera e estabelecer uma métrica antes do teste: quantas horas podem ser economizadas, quantos erros podem ser evitados ou quanto tempo uma decisão pode ganhar.

Outro cuidado está nos dados que alimentam a IA. Uma empresa pode contratar uma ferramenta sofisticada e ainda obter resultados ruins se as informações estiverem espalhadas em planilhas, sistemas que não conversam entre si ou bases sem atualização. Por isso, conceitos como data governance, conjunto de regras para organizar, proteger e garantir a qualidade dos dados, passam a fazer parte da discussão empresarial. Sem uma base minimamente confiável, a IA apenas processa informações ruins com mais velocidade.

O terceiro movimento é avaliar quais tarefas podem evoluir para fluxos com agentes de IA, capazes de executar uma sequência de ações com supervisão humana. Em vez de utilizar a tecnologia apenas para responder a uma pergunta ou produzir um texto, uma empresa pode estruturar um fluxo no qual o sistema consulta informações, cruza dados, prepara uma recomendação e encaminha o resultado para aprovação. Para isso, são necessários controles de acesso, rastreabilidade, critérios claros de aprovação e definição das atividades que continuam sob responsabilidade humana.

A urgência está justamente na velocidade com que essas ferramentas estão chegando às empresas. Um levantamento realizado em parceria com a MIT Sloan Management Review Brasil, mostrou que 66,2% dos executivos consideram a IA uma prioridade, mas apenas 7,4% das organizações conseguiram integrá-la amplamente aos processos. O dado mostra que existe uma distância relevante entre reconhecer a importância da tecnologia e conseguir incorporá-la à rotina empresarial.

“A empresa brasileira não precisa acompanhar cada lançamento nem comprar a ferramenta mais sofisticada do mercado. Precisa entender onde está perdendo tempo, dinheiro e informação e construir uma aplicação que ataque esses pontos. A IA está ficando acessível, mas isso não significa que sua aplicação seja automática. Quem começar pela operação, pelos dados e pelos processos terá muito mais clareza para decidir onde investir e, principalmente, onde não investir”, conclui o especialista.

Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/65781582-ai-conceito-em-tela-sensivel-ao-toque-exibicao-com-dedo

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