A formalização da Parceria Digital Brasil-União Europeia inaugura uma nova etapa da cooperação estratégica entre os dois blocos na área de transformação digital, ampliando as oportunidades para empresas brasileiras que desejam expandir operações, atrair investimentos e competir em mercados internacionais. A assinatura da Parceria, em junho de 2026, marcou um novo estágio dessa cooperação, estabelecendo uma agenda conjunta voltada para governança de dados, infraestrutura digital, conectividade, serviços digitais, inteligência artificial, cibersegurança e inovação.
Ao mesmo tempo em que abre novas oportunidades de negócios, a parceria também evidencia o desafio de as empresas brasileiras atenderem a padrões de governança, segurança, integração e resiliência cada vez mais valorizados nos mercados europeus. Entre os temas que mais ganham força no continente estão a soberania digital e a nuvem soberana, conceitos que envolvem não apenas o local em que os dados são armazenados, mas também a jurisdição do provedor, o controle operacional, a rastreabilidade e a portabilidade. Esses elementos podem reduzir a exposição a legislações extraterritoriais, como o CLOUD Act dos Estados Unidos, dependendo da arquitetura e dos fornecedores adotados.
Além da parceria estratégica, outros avanços reforçam essa aproximação, como as decisões mútuas de adequação em proteção de dados entre Brasil e União Europeia, que facilitam fluxos internacionais de informações pessoais, e o acordo de cooperação firmado entre a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e a Direção-Geral de Redes de Comunicação, Conteúdo e Tecnologias da Comissão Europeia (DG CONNECT), voltado à proteção de menores no ambiente digital.
Com a formalização da parceria, o Brasil torna-se o primeiro país da América Latina a integrar o grupo de parceiros digitais prioritários da União Europeia, ao lado de economias como Japão, Coreia do Sul, Singapura e Canadá. Para Filipe Carvalho, CEO das Unidades Internacionais da Verzel, empresa especializada em desenvolvimento e transformação digital, a discussão vai muito além da adequação regulatória. "A Parceria Digital representa uma oportunidade importante para empresas brasileiras ampliarem sua presença internacional, mas também reforça que a competitividade hoje depende de maturidade digital. Processos integrados, segurança da informação, automação e governança de dados são requisitos para operar em um ambiente global", afirma.
Filipe, que acompanha de perto as discussões sobre transformação digital na Europa, destaca que a soberania dos dados tornou-se um dos temas centrais do ecossistema tecnológico europeu. “Em Berlim, um dos debates mais fortes atualmente é justamente sobre soberania digital. Não basta apenas proteger os dados. É preciso entender onde estão armazenados, quem controla a infraestrutura, a quais legislações os provedores estão sujeitos e quais riscos jurídicos e operacionais existem. Esse movimento deve impactar diretamente empresas brasileiras que pretendem expandir operações ou atender clientes na Europa”, destaca.
Para as organizações brasileiras, os principais pontos de atenção passam pela dependência de provedores globais de nuvem sujeitos a legislações extraterritoriais, pela avaliação de quais dados estratégicos devem permanecer sob jurisdição europeia, conforme o setor e o contrato, e pelos investimentos necessários em arquitetura, segurança e governança. Quando não tratados, esses fatores podem reduzir a produtividade, dificultar a escalabilidade dos negócios e criar barreiras para empresas que pretendem atender clientes ou estabelecer parcerias internacionais.
Setores como tecnologia, serviços digitais, fintechs e healthtechs, podem estar mais familiarizados com esse novo cenário por já operarem em ambientes altamente digitalizados, mas também enfrentam exigências regulatórias e de segurança mais rigorosas. Em contrapartida, segmentos tradicionais da indústria e do varejo ainda precisam acelerar investimentos em automação, integração de sistemas e governança de dados para aumentar sua competitividade internacional
O momento coincide com o avanço da digitalização no próprio setor público brasileiro, já que o GOV.BR alcançou a marca de 175 milhões de usuários e reúne mais de 4.600 serviços digitais federais, além de outros 8.700 serviços oferecidos por estados e municípios. Apenas entre janeiro e fevereiro deste ano, a plataforma registrou cerca de 1 bilhão de acessos, evidenciando a crescente digitalização da relação entre cidadãos, empresas e governo. Esse exemplo demonstra a capacidade brasileira de operar plataformas digitais em grande escala. No setor privado, o desafio é transformar essa capacidade em processos integrados, segurança da informação e eficiência operacional compatíveis com operações internacionais.
Para Filipe Carvalho, a aproximação entre Brasil e União Europeia representa uma oportunidade estratégica para impulsionar a transformação digital das empresas brasileiras. “A parceria amplia a visibilidade do Brasil junto a investidores e ao ecossistema europeu de inovação. As empresas que conseguirem transformar maturidade digital em vantagem competitiva estarão mais preparadas para acessar novos mercados, firmar parcerias internacionais e crescer de forma sustentável em um ambiente cada vez mais conectado e regulado”, conclui.
Imagem: divulgação.