Decisão do TSE sobre conteúdos manipulados por IA expõe um desafio que vai além das campanhas: empresas também precisam se preparar para identificar áudios, vídeos e imagens sintéticas usados em fraudes e golpes
A inteligência artificial entrou definitivamente no centro da disputa eleitoral brasileira. Na última terça feira, 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral definiu critérios para caracterizar conteúdos como deepfake nas Eleições 2026, estabelecendo que a tecnologia pode ser enquadrada quando cria ou manipula, com grau de realismo ou verossimilhança, a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa. A decisão ocorre poucas semanas antes do primeiro turno e evidencia um problema que ultrapassa a política: a dificuldade crescente de distinguir rapidamente uma informação autêntica de um conteúdo produzido artificialmente.
As regras eleitorais já determinam que conteúdos sintéticos utilizados na propaganda devem ser identificados de maneira explícita e acessível. Para as eleições deste ano, também há restrições específicas para conteúdos sintéticos novos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas no período próximo ao pleito.
Para Rafael Franco, CEO e fundador da Joya Solutions, a discussão criada pelo TSE revela uma mudança importante na relação entre tecnologia e confiança digital. O problema já não está apenas na capacidade de produzir uma falsificação convincente, mas na velocidade com que esse conteúdo pode ser criado, distribuído e replicado antes que uma verificação consiga alcançá-lo.
“A tecnologia tornou muito barata e rápida a criação de um conteúdo falso com aparência de verdadeiro. O desafio técnico agora não é apenas identificar se houve manipulação, mas conseguir fazer essa identificação em uma velocidade compatível com a distribuição do conteúdo. Se um vídeo falso alcança milhões de pessoas antes de ser analisado, a correção posterior pode chegar tarde demais.”
O cenário eleitoral funciona como uma espécie de laboratório para um problema que também pode atingir empresas. A mesma tecnologia utilizada para criar um vídeo falso de uma figura pública pode ser empregada para reproduzir a voz de um executivo, simular uma chamada de vídeo, alterar documentos ou produzir mensagens falsas capazes de induzir funcionários a realizar operações financeiras.
Esse tipo de fraude já modifica a própria lógica de segurança corporativa. Durante anos, empresas concentraram parte significativa de seus esforços em proteger sistemas, senhas e dispositivos. Com a evolução da IA generativa, entretanto, a identidade humana também passa a ser um vetor de ataque. Uma mensagem de voz aparentemente enviada pelo diretor financeiro ou um vídeo atribuído ao presidente da companhia pode deixar de ser evidência suficiente para validar uma solicitação.
“Estamos entrando em uma situação em que reconhecer a voz ou o rosto de uma pessoa deixa de ser um mecanismo confiável de autenticação. Se alguém consegue reproduzir a aparência e a voz de um executivo com alto grau de realismo, a empresa precisa validar a operação por outros fatores. A identidade digital não pode depender apenas daquilo que os nossos olhos e ouvidos reconhecem.”
A proximidade das eleições torna o problema especialmente visível porque conteúdos manipulados podem explorar temas emocionalmente sensíveis e alcançar grandes públicos em poucos minutos. O próprio TSE afirma que uma das prioridades das Eleições 2026 é combater conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados e estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral.
Para empresas, porém, a principal lição não está na política, mas na necessidade de rever protocolos de autenticação. Solicitações envolvendo transferências financeiras, alteração de dados bancários, acesso a sistemas críticos ou compartilhamento de informações confidenciais não deveriam ser validadas exclusivamente pela aparência, voz ou mensagem atribuída a um executivo.
A recomendação é combinar diferentes camadas de confirmação, como autenticação multifator, confirmação por canais independentes, políticas internas para operações sensíveis, registros de acesso e mecanismos capazes de identificar anomalias. Quanto maior o impacto potencial de uma ação, maior deve ser o nível de validação exigido.
“O erro é imaginar que a inteligência artificial será usada apenas para criar conteúdo. Ela também pode ser utilizada para convencer alguém de que determinado conteúdo é verdadeiro. Por isso, segurança precisa considerar não apenas o sistema que está sendo acessado, mas a confiabilidade da informação que originou uma determinada decisão.”
A questão coloca empresas diante de uma nova categoria de risco: a engenharia social potencializada por inteligência artificial. Se antes um criminoso precisava escrever uma mensagem convincente ou imitar minimamente a forma de falar de determinada pessoa, agora ferramentas generativas podem reduzir drasticamente o esforço necessário para construir uma fraude personalizada.
O período eleitoral, portanto, funciona como um alerta para uma transformação que deve continuar depois das urnas. A capacidade de gerar conteúdos sintéticos tende a crescer, enquanto os métodos tradicionais de identificação baseados exclusivamente em imagem, voz ou texto se tornam progressivamente menos confiáveis.
Para Rafael Franco, a resposta não está em tentar impedir o avanço da tecnologia, mas em adaptar os critérios utilizados para determinar o que pode ser considerado confiável.
“A pergunta deixou de ser apenas ‘isso parece verdadeiro?’. Precisamos perguntar ‘como podemos comprovar que isso é verdadeiro?’. Essa mudança de mentalidade será fundamental para empresas, instituições e usuários. A IA tornou a falsificação mais acessível, então os processos de validação também precisam evoluir.”
A decisão do TSE sobre deepfakes coloca a tecnologia no centro de uma discussão que deve ganhar ainda mais intensidade até o primeiro turno das eleições. Para além do debate eleitoral, entretanto, o avanço desses recursos sinaliza uma mudança estrutural na segurança digital: em um ambiente em que rostos, vozes e mensagens podem ser sintetizados, confiança passa a depender cada vez mais de processos de autenticação e não apenas de percepção humana.
Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/65781761-pessoa-fala-para-dentro-megafone-entre-multidao-com-papel-saco-cabeca
