Todos os dias, milhões de brasileiros baixam aplicativos, criam contas e clicam em “aceitar” sem ler os termos de uso. De acordo com o site de pesquisas Delloitte, cerca de 90% dos usuários/consumidores aceitam os termos e condições de aplicativos sem sequer lê-los. Aqueles que os acessam, não o fazem na íntegra.
Em poucos segundos, uma nova ferramenta passa a fazer parte da rotina, mas muitas vezes também ganha acesso a informações que revelam muito mais do que o usuário imagina, como localização, contatos, microfone, câmera, hábitos de navegação e até padrões de comportamento.
O problema é que, na busca por praticidade, muitas pessoas tratam os dados pessoais (sensíveis) como se fossem informações sem valor. A autorização concedida a um aplicativo parece apenas uma etapa burocrática para liberar uma funcionalidade, mas pode representar uma permissão ampla para coleta e utilização de informações que ajudam empresas a entender preferências, rotinas e características dos usuários.
Lucas Paglia, advogado especializado em Direito Digital, cibersegurança e proteção de dados, o principal desafio atualmente não é a falta de tecnologia, mas a falta de consciência sobre o que está sendo compartilhado.
“Muitas pessoas acreditam que o risco está apenas quando ocorre um vazamento de dados, mas a exposição começa antes disso, no momento em que autorizamos acessos sem compreender exatamente o que estamos permitindo. A informação pessoal tem valor e, quando compartilhada sem critério, pode gerar consequências que vão desde publicidade invasiva até situações mais graves envolvendo segurança e privacidade”, explica.
Entre os comportamentos mais comuns está permitir que aplicativos tenham acesso permanente à localização, aceitar que ferramentas utilizem o microfone sem necessidade clara ou liberar o acesso à lista de contatos sem entender como aquela informação será utilizada. Em muitos casos, o usuário concede permissões que ultrapassam a finalidade principal do aplicativo.
Para Lucas, um dos pontos mais preocupantes é que essa exposição acontece de forma silenciosa. Diferentemente de uma ameaça tradicional, em que existe um sinal evidente de perigo, o compartilhamento excessivo de dados acontece no cotidiano, incorporado à rotina digital das pessoas.
“A tecnologia trouxe inúmeros benefícios, mas criou uma nova responsabilidade, a de entender que cada clique, cada permissão concedida e cada informação compartilhada ajudam a formar uma identidade digital. O usuário precisa deixar de enxergar os termos de uso como uma formalidade e começar a tratá-los como uma decisão sobre a própria privacidade”, afirma.
A falta de atenção com permissões digitais também pode afetar diferentes áreas da vida do usuário, já que informações aparentemente simples podem revelar hábitos, deslocamentos, relações pessoais e preferências. Quando reunidos, esses dados formam um panorama detalhado sobre uma pessoa, tornando a proteção dessas informações uma questão cada vez mais relevante.
Antes de abandonar aplicativos ou evitar a tecnologia, especialistas defendem uma mudança de comportamento, onde é necessário compreender quais dados estão sendo solicitados, avaliar se aquela permissão faz sentido e revisar periodicamente os acessos concedidos aos aplicativos instalados nos dispositivos.
Em uma sociedade cada vez mais conectada, a pergunta deixa de ser apenas quais aplicativos estão instalados no celular e passa a ser: quanto da sua vida você autorizou que eles conhecessem?
Imagem: divulgação.