O avanço da inteligência artificial está aumentando a necessidade de capacidade computacional e colocando a infraestrutura que sustenta a economia digital no centro das decisões de investimento. No Brasil, esse movimento ocorre em um momento de rápida adoção da tecnologia: pesquisa Our Life with AI, realizada pela Ipsos a pedido do Google, mostra que 71% dos adultos conectados no país utilizaram chatbots de inteligência artificial em 2025, ante 46% em 2023. A média global ficou em 62%.
A expansão da IA acontece paralelamente ao crescimento do mercado de data centers. Levantamento da Arizton indica crescimento de cerca de 10% ao ano para o setor brasileiro. A partir dessa taxa, estima-se que os investimentos possam alcançar aproximadamente US$ 4,9 bilhões até 2028, assumindo crescimento anual constante. O crescimento é impulsionado pela expansão de serviços em nuvem, inteligência artificial, big data, Internet das Coisas e 5G.
A combinação entre maior uso de aplicações digitais e crescimento da infraestrutura necessária para sustentá-las ocorre, porém, em meio à construção de um novo ambiente regulatório. Incentivos para atrair investimentos convivem com discussões sobre segurança, eficiência energética, sustentabilidade, privacidade e governança dos data centers.
Na avaliação da ADVISIA OC&C, consultoria estratégica que analisou as principais discussões regulatórias relacionadas às tecnologias e infraestruturas digitais no país, esse cenário faz com que a regulação deixe de ser apenas uma questão de conformidade e passe a integrar a própria equação econômica dos novos projetos.
“O crescimento da inteligência artificial amplia a necessidade de infraestrutura capaz de processar e armazenar um volume cada vez maior de dados. Ao mesmo tempo, o Brasil está definindo as condições regulatórias para essa expansão. Para investidores e empresas do setor, isso significa que questões regulatórias passam a ter peso cada vez maior na avaliação de custo, prazo e retorno dos projetos”, afirma Márcio Fernandes, Sócio da ADVISIA OC&C.
Incentivos buscam atrair novos investimentos
Uma das principais iniciativas voltadas ao setor é o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (REDATA). O PL nº 278/2026 prevê incentivos tributários para estimular a instalação e a expansão dessas estruturas no país, associados a contrapartidas relacionadas à sustentabilidade, oferta doméstica e investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A proposta avançou no Congresso e foi encaminhada à sanção presidencial em setembro.
A iniciativa ganha relevância diante da disputa internacional pela infraestrutura necessária para atender ao crescimento da economia digital e, principalmente, das aplicações de inteligência artificial. Além dos incentivos, fatores como disponibilidade e custo de energia, conectividade, segurança e previsibilidade regulatória passam a integrar a análise de atratividade de novos projetos.
Para a ADVISIA, políticas de incentivo podem contribuir para ampliar a oferta nacional de infraestrutura para computação em nuvem e IA. O efeito dessas medidas, no entanto, depende também da capacidade de estabelecer regras claras e coordenadas para a operação do setor.
“Não basta criar condições para atrair o investimento inicial. Data centers são ativos de longo prazo e decisões dessa magnitude levam em consideração todo o ambiente em que a operação estará inserida. Previsibilidade regulatória, disponibilidade de infraestrutura e clareza sobre as exigências futuras ajudam a determinar a competitividade de um mercado na disputa por novos projetos”, diz José Evangelista, Diretor da ADVISIA OC&C.
Crescimento vem acompanhado de novas exigências
Ao mesmo tempo em que o país discute incentivos, outras iniciativas avançam no sentido de estabelecer requisitos para a operação dessa infraestrutura. O PL nº 3.018/2024, em tramitação no Senado, propõe regras específicas para data centers de inteligência artificial, abrangendo temas como segurança, privacidade, transparência, governança e sustentabilidade. A proposta coloca em discussão questões que tendem a ganhar relevância conforme cresce a demanda por capacidade computacional associada à IA.
Outra frente envolve os data centers que integram redes de telecomunicações. O art. 6º da Resolução nº 780/2025 da Anatel prevê requisitos de conformidade para estruturas consideradas críticas para essas redes. Segundo o levantamento regulatório analisado pela ADVISIA, a exigibilidade desses requisitos estava suspensa enquanto a agência reavaliava a regulamentação.
Na avaliação da consultoria, o desafio está menos na existência de requisitos de segurança e conformidade e mais na coordenação entre diferentes regras. A criação de obrigações semelhantes por diferentes órgãos pode gerar controles duplicados, novas auditorias e aumento dos custos de adequação para data centers próprios e contratados.
“Segurança, resiliência e sustentabilidade são elementos fundamentais para uma infraestrutura que se torna cada vez mais crítica para a economia. O ponto de atenção é evitar que diferentes normas tratem dos mesmos riscos de maneiras distintas e acabem criando controles duplicados. Uma regulação coordenada consegue elevar a segurança sem necessariamente aumentar a complexidade e o custo dos investimentos”, explica Fernandes.
Energia e sustentabilidade ganham peso na decisão de investimento
A própria natureza dos data centers faz com que o debate sobre sua expansão ultrapasse a área de tecnologia. A infraestrutura necessária para processamento e armazenamento de dados demanda energia, conectividade e sistemas de segurança e resiliência, fazendo com que aspectos ambientais e energéticos também ganhem espaço nas discussões regulatórias.
Esse movimento aparece nas propostas em discussão no Brasil. Tanto os incentivos previstos para a expansão do setor quanto as iniciativas específicas relacionadas aos data centers de IA incorporam questões de sustentabilidade e eficiência. A ADVISIA identifica, portanto, uma agenda que combina atração de investimentos com novas exigências técnicas e ambientais.
O cenário brasileiro também acompanha uma discussão internacional sobre como equilibrar expansão da infraestrutura e novas obrigações. Na União Europeia, por exemplo, a Energy Efficiency Directive estabelece uma abordagem voltada à sustentabilidade e à transparência dos data centers, incluindo reporte e avaliação de desempenho energético e ambiental. Nos Estados Unidos, por outro lado, a política federal analisada pela ADVISIA prioriza a expansão da infraestrutura, com medidas voltadas à aceleração do licenciamento e ao acesso à infraestrutura energética.
Para a consultoria, as diferenças entre os modelos reforçam a importância das escolhas que estão sendo feitas no Brasil. O desafio será estabelecer um ambiente capaz de responder às preocupações relacionadas à segurança e sustentabilidade sem reduzir a atratividade do país para os investimentos necessários à expansão da IA.
“A discussão sobre data centers deixou de ser exclusivamente tecnológica. Energia, sustentabilidade, segurança e regulação passam a fazer parte da mesma decisão de investimento. Com a expansão da inteligência artificial, países que conseguirem combinar infraestrutura, incentivos e previsibilidade regulatória estarão em uma posição mais favorável para capturar os investimentos associados a essa transformação”, conclui Evangelista.
Imagem: divulgação.