Por Fernando Baldin, Country Manager LATAM da AutomationEdge

Se todo mundo pode assinar o mesmo copiloto e fazer o mesmo plano de treinamento, que diferencial estratégico é esse? Faço essa pergunta em quase toda reunião com cliente, e a resposta costuma ser um silêncio educado. Porque a maioria das empresas que diz "estamos adotando IA" na realidade contratou licenças de um assistente, treinou os usuários e sentou para esperar a vantagem competitiva chegar. Ela não chega e não é por culpa da ferramenta.
As três dimensões
Quando um cliente me diz "vou usar inteligência artificial", eu peço para ele me dizer em qual dimensão. São três, e elas são círculos concêntricos:
A primeira é a dimensão da pessoa. É onde vivem os copilotos, os agentes pessoais, o ChatGPT, Claude e o OpenClaw da vida. Eles fazem diferença real, em que eu escrevo um relatório melhor, monto uma apresentação mais rápido, paro de perder uma hora lendo algo que um resumo resolve em cinco minutos. Mas repare no que acontece com o processo: nada. E com o cliente: nada. Eu melhorei a minha vida, mas a empresa continua igual.
A segunda é a dimensão do processo. Aqui a IA deixa de ser algo que eu adoto e passa a ser algo que a empresa incorpora. A diferença não é semântica. Na primeira dimensão, eu alimento a ferramenta com o meu contexto todo dia. Na segunda, o contexto é o da companhia: os dados da empresa, as regras do processo, o fluxo que roda com ou sem mim. É o classificador de chamados que funciona quando eu estou de férias. É a extração de dados da nota fiscal que não depende de quem está de plantão.
A terceira é a dimensão do cliente, interno ou externo. É quando quem consome o resultado do processo percebe a diferença, sem precisar saber que existe IA no meio.
Quanto mais longe do centro, mais nichada é a solução, mais valor ela gera e mais esforço ela exige. Quanto mais perto do centro, mais padronizado é o que você recebe. E é aqui está o problema, porque o barulho todo do mercado, o "revolução da IA", o "vai roubar emprego", está quase inteiramente concentrado na primeira dimensão, que é a menor das três.
Por que a primeira dimensão não escala
Nada contra copilotos, ninguém trabalha sem Excel, Word e navegador, e a IA já faz parte desse stack. A crítica é que não dá para transformar processo a nível individual, por um motivo simples, o copiloto tem custo por cabeça. Eu fico limitado ao que aquela pessoa faz, do jeito que ela faz. Se o colega ao lado, que precisa do meu relatório, não usa, ele vira o gargalo. É uma visão micro por construção.
Quando eu construo um robô com IA dentro do processo, eu me desprendo da pessoa. A inteligência passa a ser do processo, não de quem está sentado na cadeira. Foi isso que nos fez chegar a 2019 vendendo RPA e é isso que continua valendo com IA generativa: o valor está em tirar a dependência do indivíduo, não em turbinar o indivíduo.
O incentivo da indústria vai na direção contrária
Tudo na indústria de IA é desenhado para você gastar token. A janela de contexto que era 16 mil hoje passa de 1 milhão. Inventaram "automação agêntica", que na prática é orquestração. Orquestrar gasta token. Agora dizem que orquestrar não basta, tem que fazer loop. Adivinha o que gasta?
O resultado apareceu no começo deste ano, quando a Uber contou em podcast que o orçamento de token do ano inteiro tinha acabado em abril. O detalhe mais importante veio na sequência, em que o executivo não conseguia traçar uma relação direta entre aquele gasto e o valor gerado para o cliente. Lançar mais feature é gerar mais valor? Ninguém sabia responder.
É como se fosse o Opala 4.1, carro bom, andava bem, mas você precisava ser dono de um posto de gasolina. O carro de Fórmula 1 também bebe, só que a diferença de performance justifica cada litro. A pergunta não é quanto você gasta, mas o que você entrega com o que gasta.
E o dado que fecha o raciocínio é que o Brasil está acima da média global em adoção de IA, na faixa de 80% das empresas contra 62% no mundo. Ao mesmo tempo, 39% dos projetos parados aqui foram interrompidos por vazamento de dados pessoais. A gente corre muito e capota.
O caminho é vir do problema a ser resolvido e não do anseio de adotar uma tecnologia, pois é na solução de problemas que aparecem a oportunidade de gerar valor ao processo. Não há oportunidade nenhuma em uma tecnologia desconectada do contexto e processos da empresa.
Imagem: divulgação.