Com ferramentas de inteligência artificial assumindo parte das pesquisas que antes começavam no Google, empresas precisam repensar posicionamento, reputação e presença digital para continuar entrando na consideração do consumidor
Durante anos, uma das principais preocupações das empresas foi aparecer quando o consumidor pesquisava por um produto ou serviço. A lógica de presença digital era relativamente conhecida: estar bem posicionado no Google, investir em mídia, produzir conteúdo e construir autoridade para ser encontrado. A expansão das ferramentas de inteligência artificial generativa começa, porém, a alterar essa dinâmica. Em vez de apenas apresentar uma lista de resultados, sistemas de IA podem interpretar uma necessidade, cruzar informações e entregar ao usuário uma recomendação já contextualizada.
A mudança cria uma nova questão para as marcas: não basta mais ser encontrada. É preciso ser considerada relevante o suficiente para ser indicada. Um relatório recente do Gad Insights 2026 aponta justamente para esse movimento ao discutir a chamada “relevância generativa”, em um cenário no qual ferramentas como ChatGPT e Gemini passam a participar de processos de descoberta e recomendação de marcas.
Para Jovana Menezes, estrategista de posicionamento de marcas e lideranças femininas, essa transformação coloca o posicionamento em uma função ainda mais estratégica. “A empresa sempre precisou responder à pergunta ‘por que o cliente deveria escolher você?’. Agora, existe uma camada anterior: quando alguém perguntar para uma inteligência artificial quais empresas deveria considerar, quais informações estarão disponíveis sobre a sua marca para sustentar essa recomendação?”, afirma.
A questão não significa abandonar canais tradicionais de aquisição. Dados divulgados pelo Google em 2026 mostram que 87% dos consumidores brasileiros usam Google e/ou YouTube diariamente, enquanto Busca e YouTube aparecem em 84% das jornadas brasileiras em que consumidores relatam ter descoberto uma nova marca, produto ou varejista. O comportamento, contudo, está menos linear: o consumidor pode alternar entre busca, redes sociais, vídeos, sites e ferramentas de IA antes de tomar uma decisão.
Nesse cenário, presença digital deixa de ser apenas uma questão de volume de conteúdo ou investimento em mídia. Reputação, avaliações, informações disponíveis publicamente, clareza sobre os serviços oferecidos, autoridade dos especialistas associados à empresa e consistência de posicionamento passam a contribuir para o conjunto de sinais que ajudam a formar uma percepção sobre aquela marca.
“Uma empresa pode investir muito em anúncio e ainda assim não construir autoridade suficiente para ser considerada. A mídia compra exposição, mas não necessariamente constrói a informação que sustenta uma recomendação. Quando o consumidor começa a perguntar para uma IA qual profissional contratar, qual clínica procurar ou qual empresa considerar, a marca precisa ter uma história coerente fora do próprio anúncio”, explica Jovana.
O movimento também muda a relação entre marketing e vendas. Uma empresa pode continuar gerando tráfego, leads e conversões pelas plataformas tradicionais, mas passa a disputar uma etapa anterior da decisão: a consideração. Isso exige que posicionamento, conteúdo, reputação e presença em mecanismos de busca trabalhem de forma integrada.
A própria digitalização dos pequenos negócios brasileiros reforça o tamanho dessa mudança. Pesquisa do Sebrae em parceria com FGV e Google mostrou que o aumento das vendas é o principal resultado esperado da adoção de ferramentas digitais para 57% dos MEIs e 50% das micro e pequenas empresas. Ao mesmo tempo, levantamento do Sebrae com mais de 7 mil pequenos negócios aponta que a inteligência artificial já vem sendo incorporada às operações, sinalizando que a tecnologia deixou de ser uma discussão restrita às grandes empresas.
Para Jovana, o próximo desafio não é simplesmente “usar IA” no marketing, mas entender como a empresa será percebida em um ambiente no qual parte da decisão começa a ser mediada por sistemas capazes de sintetizar informações. “A pergunta deixou de ser apenas ‘como faço para aparecer?’. A empresa precisa começar a pensar ‘o que existe sobre mim que faz alguém, ou uma inteligência artificial, entender que eu sou uma opção relevante?’. Isso muda completamente a discussão sobre posicionamento”, conclui.
A tendência aponta para uma mudança de critério na construção de marcas. Em um ambiente com excesso de conteúdo, anúncios e concorrentes disputando atenção, ser facilmente encontrado pode colocar uma empresa na pesquisa. Ser reconhecido como referência pode colocá-la na recomendação.
Imagem: https://pt.vecteezy.com/foto/19625639-chatgpt-aberto-ai-chatbot-local-na-rede-internet-em-uma-smartphone-kyiv-ucrania-fevereiro-08-2023