Como aumentar a eficácia da gestão de conteúdo corporativo (ECM) sem gastar uma montanha de dinheiro e, ainda assim, passar a contar com infraestrutura de ponta, tecnologia altamente escalável e serviços always on? Muitas empresas garantem que já encontraram uma fórmula: levar o conceito de ECM para a nuvem. Prolifera em todo o mundo a transferência para a nuvem de processos que vão desde gerenciamento de ciclos de vida de contratos, compartilhamento de vídeos corporativos ou controle de despesas de profissionais em trânsito – que fotografam recibos e enviam a imagem ao sistema via iPhone, por exemplo, até soluções mais sofisticadas e integradas com outros softwares, como o CRM.

Rodrigo Gazzaneo: “É importante o fabricante provar a viabilidade tecnológica do modelo oferecido pela nuvem”

[private] Entre os aspectos interessantes dessa tendência está o fato de que, até pouco tempo atrás, era impensável para as empresas “depositar” documentos eletrônicos importantes fora das suas instalações e muito menos depender da internet para gerenciá-los. A mudança de postura denota que os fornecedores estão, aos poucos, vencendo a batalha contra os principais inimigos do cloud computing, em especial a ideia de que o modelo não atende às exigências de segurança das empresas.

Entre analistas desse mercado, a expectativa é a de que projetos bem-sucedidos de ECM em cloud se multipliquem também no Brasil e imprimam velocidade à tendência. A indústria de TI espera que apelos como reduzir custos, prescindir de construção de infraestrutura cara, adquirir mais ou menos capacidade computacional de acordo com as demandas do negócio e melhorar o time to market, deixem de ser vistos pelos seus clientes apenas como argumentos de venda ou possibilidades distantes, e possam ser observados na prática, cada vez mais.

Entidades como a AIIM, que difunde boas práticas em ECM, revelam que, embora ainda haja resistência ao uso de nuvem pública para armazenamento de conteúdo e registros, as estatísticas indicam crescimento constante e amplo campo para expansão. Em sua mais recente pesquisa global, a entidade informa que cerca de 3% das empresas ouvidas utilizam solução de cloud ECM ou cloud storage para a gestão de seus documentos e registros, com previsão de que esse número triplique nos 18 meses seguintes. No caso de nuvens internas (datacenters virtualizados), o uso é maior – de 6% - com estimativa de duplicar no mesmo período.

Praticamente nenhum fornecedor que, de alguma forma, distribui ECM - de multinacionais que têm ECM nativo como mais um item de amplo portfólio (como a Microsoft, Oracle e IBM) a grandes nomes que têm se destacado por promover a tecnologia de parceiros (como a SAP, que mantém forte parceria com a OpenText), passando por fornecedores de tamanhos variados e com atuação focada (como a OpenText e a SML) – esconde o empenho em enriquecer seus portfólios com ofertas em cloud, seja com produto novo, seja com versão de solução já existente.

“Reescrever aplicativos no formato de software como serviço é a grande tendência do mercado, porque os usuários querem acesso via iPad, celular, notebooks ou qualquer outro dispositivo, por meio de aplicativos cada vez mais colaborativos e com formato parecido com o de redes sociais”, diz Arlindo Maluli, diretor de engenharia para a América Latina da VMware. Ele ressalta que, no caso de empresas usuárias, ir para a nuvem não significa necessariamente tirar sistemas próprios da intranet e levar para um provedor, mas também a compra de aplicativos de provedores. “Um exemplo é o Salesforce CRM, que, apesar de lidar com informações importantes dos clientes, pode ser acessado de qualquer lugar via dispositivos”, exemplifica.

A propósito, a integração de aplicativos de gestão de conteúdo com softwares, como o CRM da Salesforce, já funciona como porta de entrada de muitas empresas no mundo do cloud ECM. O acoplamento já permite, só para citar um exemplo, que empresas acessem via Salesforce o aplicativo de cloud ECM de outro fornecedor para a gestão do ciclo de vida de contratos, tudo alinhado a exigências regulatórias, como a Lei Sarbanes-Oxley.

A integração – um dos aspectos que mais influenciam a escolha de um produto ou plataforma de ECM, à frente de questões como custo total de propriedade e facilidade de implementação, segundo a AIIM - é um dos fatores que prometem acirrar a competição entre fornecedores de ECM na nuvem, com benefícios para as empresas usuárias. Nessa batalha, grandes marcas, como a Microsoft SharePoint e a EMC Documentum, disputam palmo a palmo a atenção das empresas com fornecedores especializados que usam a integração como forte diferencial – caso da norte-americana Box.net, que integrou sua aplicação de ECM hospedada em cloud com dezenas de outras soluções baseadas na web, inclusive com a suite Google Doc, multiplicando os recursos de colaboração dos usuários.

Cenário no Brasil

No Brasil, o cloud computing começa a se consolidar nas empresas, ainda que com atraso. Enquanto que nos Estados Unidos até 55% das companhias médias e grandes já utilizam alguma aplicação em nuvem, aqui elas não passam de 18%, segundo a IDC. A boa notícia é que esse percentual deverá saltar para até 35% em 2013, segundo a consultoria. Para Cassio Dreyfuss, vicepresidente do Gartner, serviços na nuvem fazem todo o sentido para as empresas, mesmo diante da reticência dos CIOs brasileiros. “A sua adoção é inevitável”, pontifica. Já Hamilton Berteli, CTO da Avanade Brasil, de posse de pesquisa com 573 executivos de grandes empresas em todo o mundo, assegura que as empresas começam a enxergar a nuvem como uma maneira de gerar receita. “No Brasil, 69% dos participantes da pesquisa disseram estar criando novos serviços e produtos por meio da nuvem, o que demonstra a flexibilidade e a facilidade de uso dessa tecnologia”, diz Berteli.

Rosano Moraes, CA Technologies: “Estamos nos preparando há dois anos para atender a essa demanda do mercado”

Outro ambiente onde se testemunha o crescente interesse das empresas brasileiras por cloud computing são os provedores de datacenter. Na Alog Data Centers do Brasil, que oferece nuvem privado ou compartilhada e várias aplicações no modelo SaaS, além dos serviços de datacenter e segurança, 20% dos clientes já utilizam o modelo, percentual que deverá chegar aos 50% nos próximos dois anos. Conforme Victor Arnaud, diretor de marketing e processos da fornecedora, revela que muitas empresas iniciam a jornada rumo à nuvem de maneira gradativa, por meio de experimentos feitos em pedaços da nuvem da Alog. “Os mais desconfiados iniciam sua migração para a nuvem privada ou corporativa com ambientes de testes, homologação ou desenvolvimento. Entretanto, já temos casos de ambientes de missão crítica hospedados completamente na nuvem, como ERPs, folhas de pagamento, sites de comércio eletrônico, GEDs, aplicações financeiras, softwares de workflow e aplicativos de segurança”, informa.

Cada vez mais se verá distribuição heterogênea de aplicações na nuvem, segundo Arnaud. “Não há um modelo predominante atualmente”, assegura. Na área de gestão de conteúdo empresarial (ECM), o diretor observa real interesse de migração. “Temos um caso recente de sucesso, da SoftExpert, que comercializa no seu portfolio uma solução desse tipo. Eles têm uma lista considerável de clientes”, diz.

O diretor avalia que gestão de conteúdo empresarial casa muito bem com nuvem porque se trata de soluções que precisam de recursos computacionais flexíveis para suportar possíveis picos de demanda.  “Além disso, redução de custos e agilidade na implantação de recursos adicionais na infraestrutura, oferecidas pelas plataformas de cloud, são fatores buscados diariamente pelos gestores dessas soluções”, afirma Arnaud.  Para enfrentar o desafio da migração, ele sugere algumas dicas importantes (veja box), entre as quais ter consciência de que a solução não é panaceia para todos os males.

As áreas mais propensas a aderir à tendência são aquelas em que os recursos compartilhados não são estratégicos, requerem escalabilidade e, por meio da nuvem, podem crescer sem necessidade de investimentos em infraestrutura. “Gestão de processos e documentos eletrônicos devem se beneficiar muito do modelo de nuvem”, diz o diretor de tecnologia da SML, David Freitas. Especializada em soluções integradas de software e serviços para gestão de documentos e automação de processos, a SML é uma das muitas fornecedoras que optaram por se antecipar às demandas e preparar soluções que rodam tanto em SaaS quanto em cloud pública ou privada. “O cliente é que escolhe se vai usar as novas modalidades ou permanecer no modelo convencional, de venda de licença e hospedagem interna no próprio ambiente computacional”, diz Freitas.

Victor Arnaud, da Alog: “Muitas organizações no Brasil ainda se utilizam apenas de um pedaço da nuvem para testar o processo”

Na percepção de Rosano Moraes, vice-presidente da unidade de negócios de virtualização, gerência de serviços e automação da CA Technologies para a América Latina, haverá migração mais frequente de aplicações que estão em datacenter próprio (on-premises) para a nuvem. Ele também avalia que o controle de projetos e o controle de conteúdo e documentação estão entre os processos mais propensos a migrar, por não fazerem parte do core estratégico e se utilizarem de softwares de mercado. As avaliações para Moraes partem de um ponto privilegiado de observação. A CA Technologies possui plataforma que permite aos clientes e provedores criar nuvens privadas/híbridas. “Acompanhamos um grande crescimento de todo o mercado e a CA Technologies vem se preparando há dois anos para essa otimização, fazendo aquisições importantes nessa área”, diz.

Em grandes players, como a EMC, a ordem é permitir que clientes interessados em novas modalidades de utilização de aplicativos de gestão de conteúdo experimentem as soluções da marca em ambiente nuvem. “Nesse modelo, os clientes contam com todas as funcionalidades dos aplicativos e ganham mais flexibilidade sem investimentos iniciais em infraestrutura interna”, atesta Rodrigo Gazzaneo, especialista em virtualização da EMC para América Latina. Ele diz que é importante para a fabricante provar a viabilidade tecnológica e comercial do modelo, de forma que seus parceiros provedores de serviços criem ofertas ricas e personalizadas.

Competindo em muitas categorias de ECM, a EMC tem ampla oferta para computação em nuvem, a começar pela infraestrutura sobre a qual clientes e parceiros podem construir ambientes de nuvem privada, pública ou híbrida. Além disso, a fabricante redobrou esforços para expandir o alcance de suas soluções, e uma das armas usadas é o projeto EMC OnDemand. Lançado em maio deste ano, sobre plataforma VMware de virtualização, o objetivo do projeto é exatamente oferecer a computação em nuvem e SaaS como nova modalidade de consumo de suas soluções de gerenciamento de informações corporativas. O anúncio do primeiro conjunto de produtos ECM sob demanda (Captiva, Documentum, Documentum xCP, Document Sciences e SourceOne) foi visto por analistas de mercado como indicador de iminente fortalecimento do conceito de cloud ECM no mercado.

Na Oracle do Brasil, o diretor de vendas consultivas de sistemas, Hermann Pais, destaca que a multinacional fornece hoje aplicativos de negócio para praticamente todas as indústrias. “Temos gestão de conteúdo como um dos nossos alicerces principais, totalmente habilitado para cloud computing”, informa Pais. Com uma plataforma unificada, que inclui o Oracle On Demand (software como serviço), a fornecedora conta com estrelas como a suite Oracle Enterprise Content Management, que integra plataforma unificada de gerenciamento de registros, documentos e conteúdo de web, entre outras funções.

A suite ganhou potência com o Oracle Exalogic Elastic Cloud, sistemas que integram servidores, rede e software de middleware e facilitam a implementação de ambientes de cloud. Tendo como púbico-alvo empresas que utilizam o Oracle Fusion Middleware, o Exalogic, combinado com o Enterprise Content Management, pode incrementar expressivamente a escala e o desempenho em funções que requerem processamento intensivo, como, por exemplo, conversão de conteúdos.

Segundo Pais, o Oracle ECM vem passando por grandes evoluções desde a aquisição da Stellent, em 2007. Entre os principais marcos na trajetória da plataforma, ele destaca a implementação do Content Store, a integração com grande número de aplicativos Oracle e, atualmente, sua consolidação como fundação de toda a gestão de conteúdo do Fusion Middleware (principal plataforma da Oracle para todos os seus aplicativos em todas as indústrias, nas versões futuras).

Independentemente da posição do fornecedor no espectro da gestão de conteúdo, de grandes marcas a empresas que vendem um ou poucos produtos que se encaixam no amplo conceito de ECM, o ambiente de nuvem será um caminho natural para a distribuição dos serviços. “Trata-se de uma grande oportunidade. Praticamente toda a linha de produtos da NDDigital já foi desenhada para operar na nuvem”, diz Guilherme Assis Arruda Oliveira, gerente de produtos da NDDigital.

Empresa com atuação na gestão de documentos e forte presença no mercado de software como serviço, principalmente no segmento de nota fiscal eletrônica, a NDDigital acredita que as cadeias logísticas de todas as empresas são beneficiadas de forma muito clara com a tendência. “Desde a emissão e impressão de uma nota fiscal até a entrega da mercadoria”, diz o executivo. Ele cita as soluções que automatizam e controlam a geração de documentos fiscais eletrônicos como grandes beneficiárias da computação em nuvem. Mesmo a gestão de documentos físicos tira proveito do conceito, ele garante. “Soluções como on-Releaser (siga-me para impressões) tiveram funcionalidades potencializadas, trazendo características de mobilidade e controle mais amplo sobre o processo”, revela. [/private]