Os  altos investimentos tecnológicos das empresas brasileiras têm evidenciado desafios no âmbito dos recursos humanos. Estudos apontam a dificuldade crescente das organizações para encontrar profissionais aptos a lidar com tecnologias emergentes e capazes de, por meio delas, tirar proveito da enxurrada de informações corporativas geradas nos mundos físico e virtual. Para dar ideia do imbróglio, somente nas empresas de TI, a defasagem de mão de obra beira 90 mil profissionais. Até 2013, esse número deverá superar 200 mil, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). 

[private] Essa carência, entretanto, nem de longe representa emprego certo para graduados recentes ou antigos. Isso porque uma forte tendência nas corporações é a busca por perfis talhados para suas necessidades específicas e para formação de equipes cada vez mais especializadas – reflexo da expansão de modelos emergentes de computação, como outsourcing, SaaS e Cloud Computing, que “exportam” para fornecedores de software e para provedores de serviços os profissionais com perfil mais técnico, enquanto concentram nas corporações as competências mais voltadas para gerir processos e pessoas.

Uma consequência disso tudo é que, mesmo precisando contratar pessoal, muitas organizações mantêm vagas ociosas por não encontrarem as competências que buscam. “Em sua maioria, a mão de obra que sai das universidades é inadequada e não pode ser aproveitada pelas empresas sem antes passar por treinamento”, testemunha Djalma Petit, diretor de mercado da Softex, associação que promove softwares brasileiros e elabora projeções sobre demanda de profissionais. Segundo ele, a dinâmica do mercado de tecnologia iguala o recém-formado e o experiente no desafio de manter-se permanentemente atualizados, sob pena de verem suas qualificações acadêmicas ou profissionais obsoletas em um curto espaço de tempo.

Se para quem lida com tecnologia da informação, de uma forma geral, os treinamentos e a especialização adquirem um senso de urgência, o desafio parece ser ainda maior para quem atua ou planeja atuar em gestão de conteúdo empresarial. “O aperfeiçoamento profissional é o grande desafio nessa área, porque o fluxo gigante e crescente de informações exige um profissional constantemente ‘plugado’ e com capacidade efetiva de transformar dados em vantagem competitiva para o negócio”, diz Francisco Paletta, professor e diretor da Faculdade de Engenharia da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado).

A equação da empregabilidade

Paletta, a exemplo de Petit, também observa perda de status do diploma universitário, por si só, nos processos de seleção das empresas. “Até um passado recente, os três principais fatores que compunham uma boa empregabilidade eram a graduação, a experiência profissional e o domínio da língua inglesa. Essa equação mudou e incluiu definitivamente o aperfeiçoamento e a especialização”, afirma o diretor.

Outra evidência desse fato, segundo Paletta, é a proliferação de programas de aperfeiçoamento, especializações e pós-graduações lato sensu e stricto sensu relacionadas a gestão da informação e do conhecimento. Em sua percepção, essa onda se intensificou nos últimos anos e resulta da maior consciência, no meio empresarial, de que informação se converte em valor apenas quando bem gerida e colocada a serviço do processo de tomada de decisão. “Dados desestruturados são transformados em inteligência a ser disponibilizada para a pessoa certa na hora certa. Isso é o maior patrimônio e o diferencial das empresas hoje em dia, e não mais a tecnologia em si. É o que torna o negócio relevante e apto a enfrentar a concorrência local e global”, afirma Paletta.

Os desafios do mundo digital já não escolhem segmentos econômicos, conforme ressalta o diretor. “A inteligência estratégica passa a ser disciplina de destaque na agenda de todo tipo de organização”, diz o educador, que não esconde sua visão crítica acerca da academia. “Os cursos que preparam profissionais da área, do bibliotecário ao analista de computação, precisam se modernizar para atender aos avanços tecnológicos. A preparação permanente e eficaz desses profissionais requer mudanças radicais do ponto de vista de graduação e pós-graduação”, diz ele.

Na FAAP, uma das ações nesse sentido foi a criação do Master em Gestão da Informação Digital e do Conhecimento, curso que forma sua primeira turma de 32 alunos neste ano e inicia a segunda em março de 2012. Fruto de convênio com a Universidade de Montpellier (França), o curso foi montado em formato de MBA (520 horas) e destina-se a graduados de um amplo leque de áreas, desde Computação, Informática e Sistemas de Informação até Webdesign e Projetos Documentários, passando por Biblioteconomia, Ciência da Informação, Arquivologia, Museologia e Jornalismo, entre várias outras. O programa é igualmente extenso, cobrindo mais de uma dezena de disciplinas. Começa com armazenamento e recuperação de informação digital e termina com tópicos avançados da gestão da informação e temas sofisticados, como Web Semântica e Ontologia.

O preço continua sendo uma barreira importante para esse tipo de qualificação. No caso da FAAP, o subsídio fornecido pelo governo francês reduziu o custo de R$ 35 mil para cerca de R$ 12 mil a R$ 14 mil. Outra vantagem é a possibilidade de o aluno obter duplo diploma, desde que comprove proficiência no idioma francês. “Três dos nossos alunos já receberam o título francês, que equivale ao nosso mestrado. Já o diploma brasileiro é de especialista lato sensu”, explica o diretor, que prepara para 2012 levantamento que verifica o impacto que cursos como esse têm na carreira, no salário e na empregabilidade dos participantes.

Impacto na carreira

Quem já consegue fornecer um testemunho sobre esse tipo de impacto é Edson Becker, coordenador da área de gestão de documentos compartilhados do Sistema FIEP (que atua no Paraná por meio da FIEP, SESI, SENA, IEL, C2i e Unindus). “De um tempo para cá, aumentou o assédio de empregadores, principalmente na área de consultoria”, diz o gestor, que participa do projeto de ECM da entidade, desde a sua origem departamental até a expansão para toda a corporação, resultando na criação da área específica para gestão de documentos. “Minha dedicação ao projeto exigiu da minha parte uma busca por conhecimentos na medida em que avançávamos, e isso resultou na minha promoção e em consequente aumento salarial”, diz o coordenador.

Graduado em Ciência da Computação e com duas pós-graduações, uma em Gestão Empresarial e outra em Gestão da Tecnologia da Informação, Becker, aos 41 anos de idade, nem cogita reduzir o ritmo quando o tema é aperfeiçoamento profissional. “Trabalho diretamente com profissionais da área de gestão da informação. Preciso ter conhecimento para aprofundar o diálogo”, diz ele. Para alguns treinamentos, ele contou com o subsídio da empresa, mas não hesitou em pagar do próprio bolso quando necessário. O resultado é um currículo recheado de cursos que vão de ERM (Electronic Record Management) e conceitos de ECM até Captação da Informação e Document Imaging, além das pós-graduações.

No Sistema FIEP, Becker costuma receber visitas técnicas de empresas e confederações interessadas em aprender com o projeto de ECM da entidade. “Claramente, todas têm necessidade de profissionais com conhecimentos específicos nessa área, o que reforça a importância de se investir em capacitação”, diz ele, lembrando que ter algum domínio do inglês é essencial. “Todas as apostilas para as certificações que usei estavam nesse idioma”, diz.

As certificações às quais Becker se refere, seu mais recente esforço de capacitação, são as da Association for Information and Image Management (AIIM), entidade internacional focada no mercado do gerenciamento de informações. “Em 2009, fiz treinamento sobre estratégias, métodos e ferramentas para gestão de conteúdo e obtive o Certified AIIM ECM Practitioner. Em 2011, avancei mais um passo e conquistei o título de Specialist. A meta agora é alcançar a mais alta certificação AIIM, que é o ECM Master”, diz o gestor, que contou com a ajuda financeira do empregador, mas não descartaria assumir os custos. “Os preços são acessíveis e o custo-benefício excelente”, avalia. Ele ressalta ainda que a iniciativa dá acesso a uma rede de profissionais certificados que exercita o compartilhamento de conhecimentos. “Todos se conhecem e trocam informações”, diz.

Estado da arte

Walter Koch, diretor da ImageWare e consultor internacional em ECM, informa que essas certificações citadas por Becker – AIIM ECM Practitioner, AIIM ECM Specialist e AIIM ECM Master – estão entre as mais importantes para quem quer se destacar na área de conteúdo empresarial. Ele diz que o treinamento prévio que elas exigem impacta a carreira porque atualiza o profissional sobre as principais normas e padrões da indústria, ao mesmo tempo em que o familiariza com as estratégias para a gestão eficiente do conteúdo corporativo.

Do lado do empregador, a relevância dos títulos é inquestionável, segundo o consultor. ”Cresce o número de organizações que exigem profissionais certificados ao fazerem os seus processos de aquisição de soluções, para assegurar-se de que receberão o estado da arte. Temos recebido constantemente solicitação de indicações de gente certificada e a informação que temos é que a demanda por este tipo de funcionário está maior que a oferta”, informa Koch. Como instrutor da matéria, ele tem percebido um número cada vez maior de profissionais que arcam pessoalmente com os custos da certificação. “Isso está ocorrendo independentemente da organização em que trabalham”, ressalta.

Tecnologias específicas

Na faculdade de tecnologia FIAP, o diretor acadêmico do Centro de Pós-Graduação, Francisco Amaral, utiliza a comunidade de 1.250 alunos dos cursos de pós-graduação da instituição como termômetro para medir as demandas das empresas no que concerne competências profissionais relacionadas com gestão da informação e conhecimento. Segundo ele, as universidades ainda não estão preparando profissionais na área específica de ECM, mas os interessados podem se qualificar buscando especializações em áreas correlatas ou mesmo treinamentos de curta duração. “Além disso, os grandes players da área estão muito interessados em formar pessoas nas suas tecnologias específicas”, orienta o educador. 

Com base em seu termômetro, Amaral afirma que a demanda por competências relacionadas com ECM se concentra mais nos negócios de maior porte. “Grandes empresas atingiram um estágio de amadurecimento que lhes permite tratar a informação de forma mais avançada, e precisam de especialistas para isso”, diz o diretor, que não descarta lançar um programa focado em ECM, desde que haja demanda do mercado e amadurecimento e massificação da tecnologia.

Professor de planejamento estratégico de sistemas de informação, com mais de 30 anos de atuação na área de TI, Amaral acompanhou, ao longo dos anos, o deslocamento da informação para o foco central dos cursos de tecnologia e das estratégias empresariais. “As grandes mudanças econômicas e sociais, o advento da internet e a incontrolável gama de dados trazida pela rede fizeram as empresas olharem para além da gestão da informação, buscando a gestão do conhecimento. Ou seja, além de tratar a informação em si, elas precisam armazenar elementos adicionais, como vivências, experiências e capacidade analítica para explicar o que ocorreu e o porquê”, diz ele. A formação e especialização dos profissionais dessa área, ele acrescenta, precisam acompanhar o ritmo dinâmico imposto pelas inovações.

Carreira planejada

Especialistas de RH apontam o plano de carreira como excelente antídoto contra a obsolescência de qualificações, contornando o risco de o profissional cair em uma espécie de “limbo”, quando o seu perfil não se encaixa mais nem como gestor, nem como técnico. A escolha de treinamentos e de cursos de especialização deve levar em conta esse aspecto.

Nas grandes corporações, por exemplo, as competências que estão em alta são as relacionadas com gestão de processos e de pessoas, e que ajudam a alinhar a tecnologia à estratégia do negócio. Já funções mais técnicas são mais numerosas entre os fornecedores de tecnologia e serviços.

Um aspecto destacado pelos especialistas em recrutamento é que atualmente o conhecimento do negócio e a habilidade de negociação e comunicação passaram a ser exigidos de todos os profissionais que lidam com tecnologia da informação, independentemente de ser gerencial ou técnico. Confira as características que, de uma forma geral, estão relacionadas a cada perfil.

Perfil gerencial

  • Visão macro da TI, envolvendo estratégia, processos e operações
  • Capacidade de planejamento e de liderança
  • Equilíbrio entre conhecimento tecnológico e conhecimento do negócio
  • Entendimento de gestão de processos e de pessoas
  • Forte habilidade de negociação e comunicação

Perfil técnico

  • Forte raciocínio lógico e analítico
  • Habilidade e motivação para resolução de problemas, movido a desafios
  • Foco em tecnologia, atualização permanente, busca de soluções inovadoras
  • Grande parte do tempo destinado a atividades operacionais
  • Habilidade de negociação e comunicação

Serviço: Onde fazer pós-graduação nas áreas de informação e conhecimento

IBICT-UFRJ - Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação - PPGCI
Tel: 21 2275-0321 - E-mail janete@ibict.br

UFBA - Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (Posici)
Tel: 71 3283-7751 / 7752 - E-mail: posici@ufba.br

UFMG - Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
Tel: 31 3409-6103 - E-mail: ppgci@eci.ufmg.br

 

UFRGS - Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação –

Tel: 51 3308.5116 - E-mail: ppgcom@ufrgs.br

 

UFSC - Pós-Graduação em Ciência da Informação

Tel: 48 3721-8516 - E-mail: pgcin@cin.ufsc.br

 

UFSC - Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento (EGC)
Tel: 48 3721-7121 - E-mail: secretaria@egc.ufsc.br

UNB - Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCINF)
Tel: 61 3107-2633 - E-mail: pgcinf@unb.br

UNESP - Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
Tel: 14 3402-1336 - E-mail: posci@marilia.unesp.br

UFPB - Pós-Graduação em Ciência da Informação - UFPB
Tel: 83 3216 7483

UNIRIO– Programa de Pós-Graduação em Memória Social
Tel: 21 2542-2820 / 2708 - E-mails: ppgms.coordenacao@unirio.br e ppgms.secretaria@unirio.br

USP – ECA - Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação
Tel: 11 3091-4019 E-mail: pgeca@usp.br

UEL- Pós-Graduação em Gestão da Informação - Mestrado Profissional
Tel: 43 3371-5914 E-mail: mpgi@uel.br

UNIRIO - Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio
Tel: 21  3514-5213 E-mail: coordenacaoppg-pmus@unirio.br

FAAP - Master em Gestão da Informação Digital e do Conhecimento
Tel: 11 3662-7449 E-mail: pos.atendimento@faap.br [/private]