A reflexão sobre a responsabilidade das empresas para os níveis atuais de inadimplência deve ser complementar à discussão sobre a educação financeira dos devedores

A gestão eficiente de contas a receber traz grandes desafios, dois deles se destacam. O primeiro é ter previsibilidade de caixa e o segundo é reduzir os pagamentos em atraso de clientes devedores. É intuitivo perceber que os dois estão intimamente relacionados, dado que os atrasos de pagamentos afetam a geração de fluxo de caixa, por consequência, o equilíbrio financeiro e a rentabilidade do negócio.

Quando se fala em atrasos de pagamentos e a elevada inadimplência do Brasil, a justificativa recai, frequentemente, na falta de educação financeira dos devedores. Depositar todas as justificativas nesse aspecto e abrir mão de uma visão mais abrangente sobre o tema é flertar com uma zona de conforto ineficiente e prejudicial para todas as partes. Não se trata de rejeitar a necessidade de promover o conhecimento financeiro, mas de enxergar o problema com suas diferentes lentes.

Antes de responder à pergunta título deste artigo, trago uma breve reflexão sobre como são desempenhadas as atividades nos departamentos de contas a receber face pagamentos em atraso de clientes, que servirá de pano de fundo da minha resposta.

Mudança de mentalidade para uma nova gestão

Se a necessidade de educação financeira pode ser uma característica comum dos devedores, as empresas, por sua vez, não devem ceder à inércia para justificar a inadimplência. Os gestores precisam construir uma nova mentalidade de eficiência nos departamentos de contas a receber que traga celeridade na adaptação das atividades operacionais frente às mudanças comportamentais dos clientes. Operações morosas, profissionais com muitas atividades repetitivas, dificuldades para organizar informações e comunicação lenta com os clientes são comuns e contrastam com a dimensão atual do problema. Esses aspectos são referenciais que fundamentam a importância de repensar o papel das empresas ao lidar com a inadimplência.

A implementação tecnológica é bem-vinda para lidar com essa realidade, porém, somente a aplicação da tecnologia não reduz níveis elevados de inadimplência. A tecnologia deve ser acompanhada de uma dinâmica de trabalho derivada da mudança de mentalidade, até mesmo para compreender qual solução é a mais adequada ao momento.

Aspecto comportamental requer atenção

A tecnologia traz eficiência aos processos de relacionamento com clientes devedores e ajuda a entender os fatores que determinam os pagamentos, permitindo responder perguntas como: Quais fatores contribuem para os atrasos de pagamentos? Ainda, quais fatores contribuem para os pagamentos em dia? A imagem da minha empresa sensibiliza o nível de inadimplência? Encontrar respostas para essas perguntas exige esforço, mas a partir delas é possível estabelecer um relacionamento personalizado.

Tecnologia como agente conciliador  

A tecnologia simplifica atividades operacionais, facilita o cotidiano dos gestores e permite conciliar interesses, da empresa e do cliente devedor. Os benefícios oferecidos pela tecnologia são compartilhados e se materializam em menores taxas de inadimplência.

Por fim, respondendo à pergunta título deste artigo, o principal benefício da tecnologia para os departamentos de contas a receber é, não apenas potencializar a eficiência operacional da empresa, mas oferecer aos gestores a oportunidade de assumirem a responsabilidade e serem protagonistas da solução para os pagamentos em atraso. Portanto, a educação financeira dos clientes devedores, embora fundamental, não deve ser perpetuada como o único artifício para a redução da inadimplência observada no país.

Como você enxerga a influência da tecnologia para departamentos de contas a receber? Faça essa reflexão e participe do debate!

*Texto de Pedro Bono é CEO e cofundador na Receiv, plataforma inteligente de contas a receber. É Doutor pela FGV e professor de gestão de risco de crédito nas melhores escolas de negócio do país.