No início do corrente mês tivemos a oportunidade de bater um papo com um grupo de jovens empreendedores apoiados pelo programa startupRIO.

Vamos aqui resumir o que foi discutido em torno dos impactos das tecnologias e dos processos de inovação no trabalho de uma forma geral e nas profissões especializadas.

Ainda falamos sobre o que vem sendo debatido em termos de responsabilidade social no desenvolvimento e aplicação na sociedade das tecnologias emergentes da informação.

Quando pensamos em inovação nossa mente usualmente nos remete para cenários de automação do trabalho com a substituição das pessoas pelos robôs, do uso da inteligência artificial no lugar da inteligência humana, do fim dos empregos e outras impactos antevistos das novas tecnologias.

Mas será tudo isso uma verdade absoluta e previsível para o curto prazo? Estas são dúvidas que afligem hoje as pessoas no mundo todo.

Fazendo uma rápida consulta ao Google, tendo como referência os termos machines (máquinas), robots (robôs) e artificial intelligence (inteligência artificial), as questões se mostraram bastante convergentes quanto às ansiedades manifestadas pelas pessoas:

Will machines (1) replace doctors (substituir os médicos)? e (2) take my job (tomar o meu emprego)?

Will robots (1) take my job (tomar o meu emprego)?e (2) replace humans (substituir os humanos)?

Will artificial intelligence(1) surpass humans (ultrapassar os humanos)? e (2) replace humans (substituir os humanos)?

As indagações acima refletem um preocupação que foi muito bem retratada por Paulo Feldmann em recente artigo publicado no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo: nosso emprego vai para um robô?

O professor ainda ressalta o fenômeno que os americanos chamam de jobless growth (crescimento com menos empregos)no qual o surgimento das oportunidades de trabalho associadas ao uso das novas tecnologias é drasticamente menor do que a extinção de postos tradicionais pela substituição dos seres humanos pelas máquinas.

Este problema de desemprego estrutural nos dias de hoje é bem mais sério do que nos tempos passados: no século 20 a mecanização trouxe impactos predominantemente para os empregos de baixa qualificação, mas na situação atual também são afetadas as tarefas de maior qualificação.

Para Feldmann, ecoando opiniões de autores citados no seu artigo , a inteligência artificial e a robótica terão impactos mais devastadores sobre o emprego do que tudo o que aconteceu nos dois séculos anteriores, só que agora afetando a classe média e boa parte dos trabalhadores intelectuais.

Nesta linha, segundo Wolfang Streeck, a economia capitalista corre sério risco de "morrer de overdose por excesso de sucesso". Isto porque o fenômeno do desemprego estrutural oferece amplas oportunidades para alguns em detrimento de uma imensa maioria de pessoas que, ao contrário do que aconteceu anteriormente, tem bem menos possibilidades de se reciclar e de migrar para empregos alternativos.

Mas o fato concreto é que não podemos diminuir nem usar freios para reduzir a velocidade do avanço tecnológico: no final das contas o uso da tecnologia é inevitável, não só pela sua contribuição para a sustentação da competitividade das empresas como pelos seus efeitos na ampliação do conhecimento nas mais diversas profissões.

As empresas e os profissionais devem então se preparar para o futuro, que já é hoje, desenvolvendo novas competências para continuar trabalhando e se qualificando para as oportunidades que se abrem com as novas fronteiras da informação e do conhecimento decorrentes das inovações tecnológicas.

Nesta linha devemos ser parceiros e não adversários da tecnologia. As máquinas não pensam, os computadores e robôs podem ser dotados de "competências" para desempenhar tarefas cognitivas simplificadas, além de tomar algumas decisões, mas a partir de critérios e parâmetros ainda definidos pelos humanos.

É claro que não desconhecemos a existência dos "robôs advisors", plataformas de altíssima efetividade para a tomada de decisões no mundo dos investimentos, ou das aplicações de machine learning que conseguem alto desempenho nos modelos analíticos de tomada de decisões.

Entretanto, máquinas não tem empatia e não conseguem criar relacionamentos e desenvolver insights e inovar como as pessoas o fazem (muito embora alguns digam que ainda não…..). Assim, nos parece que sempre caberá ao ser humano exercer o pensamento crítico e desenvolver a capacidade de adaptação às novas circunstâncias.

Ao abordar tais questões para os jovens empreendedores do programa startupRIO não tivemos como propósito traçar um futuro sombrio para as suas carreiras, muito pelo contrário.

As perspectivas para os profissionais envolvidos com as tecnologias emergentes da informação, notadamente quando falamos de temas como a ciência de dados, a inteligência artificial, a robótica e o blockchain, entre outras aplicações, são extremamente promissoras.

Mas temos que desenvolver nossas atividades com a consciência dos efeitos da tecnologia na sociedade e da responsabilidade social a ser assumida pelas empresas e pelas instituições que incentivam e promovem o desenvolvimento tecnológico.

Ainda fazendo minhas as palavras do professor Feldmann constantemente citado neste meu artigo, "a renovação que essa parafernália tecnológica possibilita, que vem sendo chamada de quarta revolução industrial, destina-se a aumentar a produtividade das empresas".

Mas pouco se leva em conta a possibilidade de preservar os empregos ou de criar mecanismos que minimizem os efeitos para a sociedade do fenômeno do jobless growth precedentemente abordado.

O que deveria ser objeto de premente discussão tanto na academia como nas empresas, nas instituições governamentais e na sociedade em geral: se já somos hoje cerca de 13 milhões de desempregados, qual será o nosso futuro com os efeitos já antevistos da indústria 4.0?

Para que nossa economia não corra o risco de morrer de overdose por excesso de sucesso das aplicações da tecnologia, como comentamos precedentemente…..

 

Newton Fleury

Autor, consultor e professor com foco em inovação e estratégia, processos de negócio, gestão da informação e do conhecimento e tecnologias de apoio à gestão.