Blockchain é um dos temas mais discutidos atualmente no contexto das tecnologias rompedoras. Dada sua estreita associação com as criptomoedas, muitas pessoas a confundem com as mesmas por ser a tecnologia que abriga e rastreia as transações de bitcoins e outras moedas.

Mas já se entende que blockchain é uma "tecnologia de infra-estrutura" independente das transações com os bitcoins e demais criptomoedas : cada vez mais se contemplam outras possibilidades de seu uso como apoio aos processos de negócio.

Mas o que é exatamente o Blockchain? Uma definição sintética que encontramos em leitura despretensiosa de final de ano: “ é uma tecnologia que armazena e processa informações confidenciais, como transações financeiras ou registros de votos, em muitos computadores diferentes, ao invés de colocá-los em um só lugar”.

Recente publicação também nos explica que é uma tecnologia composta de dois elementos principais: blocos (block) e cadeias (chain) que interligam os mesmos. Cada bloco tem um identificador denominado hash, um conjunto de caracteres derivado automaticamente da informação nele contida.

No âmbito da cadeia cada bloco contém o hash do bloco precedente, e é neste principio que os especialistas dizem estar a sustentação da segurança das interligações no âmbito da tecnologia blockchain: se um bloco é modificado por meio de uma transação não autorizada o seu hash é alterado, levando a que o bloco subsequente não aceite o novo conjunto de caracteres provocando uma quebra entre os elos da cadeia.

Simples assim? Nem tanto….de uma forma geral trata-se ainda de uma tecnologia dominada por poucos e que começa a ser testada em uma escala mais ampla, ainda sujeita a críticas que encontramos na literatura especializada:

no ultimo mês de dezembro lemos extenso artigo onde o autor (Kai Stinchcombe) afirma categoricamente não existirem ainda evidências, casos de uso concretos, de resultados consistentes de aplicação do blockchain nos ambientes de negócios, fora do âmbito das transações com as criptomoedas…..;

nas suas considerações do inicio do ano a respeito do que vai acontecer para a frente, a primeira previsão de John Battelle para 2018 é sobre o futuro do blockchain: crypto/blockchain dies as a major story this year (crypto / blockchain morre como uma grande história este ano)…..

Estou passando uma visão pessimista sobre o futuro do blockchain? De modo algum…..mas, como em todas as situações em que nos defrontamos com inovações disruptivas penso que devemos seguir o que nos ensina Roy Amara: evitar tanto superestimar seus efeitos no curto prazo como subestimar seus potenciais resultados no longo prazo.

Mas deixemos esta discussão para os especialistas, dando tempo ao tempo para a consolidação da tecnologia e suas aplicações, o que inevitavelmente se dará com o alcance de um patamar de maturidade derivado das experiências de uso pioneiras.

Vamos então enveredar nesta breve digressão sobre algumas expectativas e iniciativas relevantes em curso quanto ao blockchain, de âmbito corporativo e institucional, olhando para o futuro com cautela mas sob uma perspectiva otimista:

as instituições financeiras esperam que essa tecnologia possa ser adaptada para simplificar e reduzir os custos de processos como a liquidação de títulos e transferências internacionais de dinheiro;

neste sentido, artigo publicado na Isto É Dinheiro no ultimo mês de dezembro nos fala de como o blockchain está atraindo os bancos: um consórcio de 80 instituições financeiras ao redor do mundo, que inclui os brasileiros Bradesco e Itau, vem há dois anos desenvolvendo uma plataforma de registro distribuido de transações, o projeto R3 Corda, de forma a possibilitar operações bancárias mais rápidas, baratas e seguras. Além disso, mais recentemente foi noticiado que o projeto R3 caminha para incorporar a plataforma Hyperledger da Fundação Linux e da IBM;

ainda nesta linha, a empresa de cartões de crédito Visa já anunciou a primeira fase piloto do seu serviço de pagamentos de negócios para empresas baseado em blockchain, o Visa B2B Connect.

Considerando que empresas de tecnologia de dimensão global estão investindo pesadamente nas plataformas de blockchain tendo como foco aplicações para os ambientes de negócios, é de se acreditar que a viabilidade da tecnologia em escala operacional é uma mera questão de tempo.

Para aqueles que têm interesse em uma análise comparativa entre as três principais opções de plataformas de blockchain (Ethereum, Hyperledger Fabric e Corda), sugerimos recente estudo publicado a respeito pelo Frankfurt School Blockchain Center.

No plano do desenvolvimento de padrões para a tecnologia Blockchain a ISO (Organização Internacional de Normalização), entidade que congrega os institutos de padronização e normalização de 246 países, iniciou no primeiro semestre de 2017 os estudos para a normalização dos conceitos e aplicações da tecnologia, tendo como base documento inicial produzido pela autoridade australiana: Blockchain & Distributed Eletronic Ledger Technologies.

A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) aderiu ao projeto na condição de membro participante, com a criação da Comissão de Estudo Especial de Blockchain e Tecnologias de Registro Distribuído (ABNT/CEE 307, da qual fazemos parte representando o TIRio, como espelho da ISO/TC 307 — Blockchain and Distributed Ledger Technologies.

E quanto à inserção do blockchain na estratégia dos negócios corporativos de uma forma geral?

A partir dos relatos que temos visto em publicações e na participação em eventos relacionados, percebe-se que os casos de uso apresentados ainda têm forte concentração no apoio às transações com criptomoedas e, quanto aos experimentos, nas transações nos ambientes de negócios das instituições financeiras, especialmente os bancos.

Mas pelas características da tecnologia pode-se intuir ser a mesma potencialmente aplicável a diversos segmentos e processos de negócio, tanto na esfera privada como nos setores de governo: concessão e manutenção de registros de aposentadorias, gerenciamento de prontuários médicos, execução e acompanhamento de processos licitatórios, e transações de compra e venda de imóveis e seu registro nos cartórios, entre outras.

Sem falar nos contratos inteligentes (smart contracts), um mundo novo que se abre para o estabelecimento de relações entre pessoas e/ou empresas e seu registro como uma atividade automatizada confiável entre os pares em uma rede, que exigirá dos advogados e dos escritórios de advocacia a visão de seu trabalho sob novos paradigmas (voltaremos oportunamente a este tema que, por si só, deve ser assunto de uma publicação especializada).

Concluindo, a despeito da maioria dos relatos de experiências e discussões sobre blockchain ainda estejam voltadas para os desenvolvedores especializados, já é consenso que a viabilidade da expansão da tecnologia em larga escala dependerá da disponibilidade de linguagens formais de alto nível e da disseminação de casos de uso que tornem as aplicações mais transparentes e acessíveis aos usuários leigos.

Para isso, faz-se necessário um maior envolvimento dos gestores e especialistas em processos de negócios na discussão das possibilidades e vantagens comparativas de aplicação do blockchain na gestão.

Na perspectiva da sua inserção na estratégia de negócios deve-se seguir o que histórias passadas nos contam: tecnologias novas e rompedoras devem ser em primeiro lugar entendidas pelos gestores, o que pode ser auxiliado pela busca de relatos de experiências (casos de uso) e participação em eventos sobre o tema (não importando se ainda tem um cunho muito técnico, o importante é compartilhar dúvidas e sugestões com outros interessados).

Em seguida as tecnologias e possíveis soluções ofertadas devem ser adotadas com cautela e parcimônia, por meio de experiências piloto de forma a não comprometer o cerne dos negócios…..é o que estamos vendo nos experimentos relacionados ao setor financeiro de uma forma geral.

Nos parece que este é o principal desafio a ser enfrentado para que o blockchain ultrapasse as fronteiras acadêmicas e técnicas, assumindo seu lugar nos ambientes de discussão sobre as estratégias corporativas.

 

Newton Fleury

Autor, consultor e professor com foco em inovação e estratégia, processos de negócio, gestão da informação e do conhecimento e tecnologias de apoio à gestão.